As características específicas do comprador de imóveis de baixa renda estão levando incorporadoras a adotar estratégias de marketing cada vez mais próximas das consagradas pelo varejo. A venda de imóveis em lojas situadas em locais com grande fluxo de pessoas é uma estratégia adotada pelas empresas de construção com atuação tradicional na faixa de menor renda, que ganhou mais força com o programa habitacional "Minha Casa, Minha Vida".
Companhias que não tinham foco no segmento econômico, mas elevaram sua participação nessa faixa devido ao pacote, também têm buscado esse canal. Independente do formato, a comunicação precisa deixar claro que a prestação cabe no bolso do potencial comprador. A Living Construtora, empresa da Cyrela Brazil Realty destinada ao segmento econômico, inaugurou em setembro suas duas primeiras lojas, nos shopping centers Penha e Aricanduva, na capital paulista. A zona Leste é a região da cidade com mais empreendimentos Living. Até o fim do ano, a empresa deve inaugurar uma loja em Guarulhos. A intenção da Living é ir em direção ao público consumidor potencial, segundo o diretor geral da empresa, Antonio Guedes. Os imóveis continuam sendo oferecidos também nos estandes de vendas e pela internet.
Outra estratégia de marketing adotada pela empresa é a campanha que tem como garoto-propaganda o apresentador Luciano Huck, a ser veiculada por um ano na televisão e em jornais. Enquanto isso, a Tenda fechou uma parceria com a Casas Bahia, empresa do varejo que possui o mesmo público potencial de seus imóveis. No início de setembro, a Tenda montou dois apartamentos decorados, modelo padrão (mais populares), com 50 metros quadrados, dentro de uma loja da varejista, no centro de São Paulo. A venda do imóvel não é feita na Casas Bahia, que apenas cedeu o espaço para a montagem do "show room", mas no local o interessado obtém as informações sobre preços e financiamentos. Assim, os clientes da Casas Bahia que se interessarem pelo imóvel exposto são encaminhados à diretoria comercial da Tenda, para concretizar o negócio. A parceria prevê ainda que a varejista possa colocar vendedores em pontos-de-venda da Tenda espalhados pela cidade de São Paulo. A Tenda pretende ampliar a parceria para outros estados, chegando à capital fluminense e a Salvador ainda este ano, informa a diretora de Marketing, Dirce Amaral. Em setembro, a Tenda passou a oferecer atendimento também em uma unidade móvel, chamada de "Tenda Truck". Na carreta, a Tenda reproduz o atendimento feito nas lojas, com informações sobre lançamentos e com um simulador de financiamento da Caixa Econômica Federal (CEF). A estreia do atendimento na carreta foi no Extra Penha, na Marginal Tietê, em São Paulo. Em busca de ir onde o cliente está, a MRV Engenharia tem lojas há mais de 20 anos. São cerca de 200 pontos-de-vendas em vias de grande movimento, incluindo lojas de rua, centrais e plantões de vendas. A empresa possui estandes em shopping centers destinados às classes B e C em São Paulo, no interior do Estado e em Belo Horizonte. A internet também tem sido importante ferramenta de marketing para a venda dos produtos, de acordo com o gestor executivo de marketing da MRV, Rodrigo Resende. Segundo ele, os acessos ao site da empresa dobraram depois do programa "Minha Casa, Minha Vida". Até o ano passado, MRV e Tenda patrocinavam times de futebol. A MRV patrocinou o Atlético Mineiro até 2007 e o Vasco da Gama em 2008. Sem clareza de como seria o cenário econômico em 2009, a empresa decidiu não ser patrocinadora de nenhum clube. Para 2010, a expectativa é retomar o patrocínio a um time. Já a Tenda foi patrocinadora do Cruzeiro, mas optou se aproximar, diretamente, do consumidor este ano, sem mediação do marketing esportivo. De olho no crescimento registrado pelo ramo imobiliário, o Grupo Pão de Açúcar criou uma nova empresa para atuar exclusivamente neste segmento, a GPA Malls & Properties, com previsão para entrar em funcionamento ainda este ano. A ideia é separar as operações de varejo dos ativos imobiliários - como as galerias comerciais localizadas nos hipermercados e os aluguéis dos pontos-de-venda - para distinguir os ganhos de cada área aos acionistas. Na região do Jaguaré, em São Paulo, por exemplo, a empresa construiu seis prédios com um total de 390 apartamentos ao lado de um terreno de um hipermercado. Além do Pão de Açúcar, o Wal-Mart é outra empresa que também deverá entrar no ramo imobiliário. Especialistas avaliam que a tendência de parceria entre o varejo e as incorporadoras tende a se ampliar. Para a consultora da Vecchi & Ancona Estratégia e Gestão de Negócios, Ana Vecchi, há uma busca pela complementaridade dos negócios por meio de parcerias que visem estimular a inserção de seus produtos em pontos-de-venda de empresas com públicos afins. Segundo ela, esse movimento é um mix de parceria e conveniência, que poderá gerar até a perda de vendas às empresas que não se adaptarem a este novo modelo. Ou seja, o aumento da concorrência tanto no varejo quanto no ramo imobiliário é que está levando as empresas a procurarem por formas inovadoras para ampliar as vendas. A tendência é de que esse movimento venha a crescer cada vez mais, principalmente entre empresas de ramos diferentes, mas com públicos afins.
Fonte: Agência Estado