23 de fev de 2008

A Escola de Engenharia Mackenzie: Tradição e Pioneirismo












OS PRINCIPAIS SÍMBOLOS DA ENGENHARIA MACKENZIE - O POPEYE, A LETRA " M " EM VERMELHO, E OS PRÉDIOS EM ARQUITETURA AMERICANA.
Quando se fala em imigração para a Província de São Paulo na segunda metade do século XIX, alguns assuntos vem à tona, como inerentes ao processo. Pensa-se de imediato em cafeicultura, em industrialização, em ferrovias. A noção de imigração compreende também a busca de melhores condições de vida, alcançadas pela oferta de trabalho com remuneração mais digna, ou como a busca de uma região mais tranquila, longe de conflitos políticos e sociais.
Mas não foi nenhum destes motivos que trouxe ao Brasil o primeiro grupo de missionários presbiterianos norte-americanos.
A história contada nos remonta a 1859, quando chegava ao Rio de Janeiro o reverendo Ashbel Green Simonton, vindo dos Estados Unidos com a missão de difundir o presbiterianismo no Brasil. Dois pontos favoreciam seu sonho: a política de incentivo a imigração e a própria constituição imperial, que previa a tolerância religiosa de cultos não católicos.[i]

Em julho de 1862, desembarcava em solo brasileiro outro imigrante presbiteriano, vindo em busca de cuidados para sua saúde. Era George W. Chamberlain, nascido na Pensilvânia em 1839. Ao chegar, encontrou a obra missionária de Simonton em pleno processo de crescimento e aliou-se a ela tão destacado zelo, que retornou em 1866 aos Estados Unidos para se aperfeiçoar em teologia.

Dois anos depois, Chamberlain retornava ao Brasil, acompanhado de sua esposa Mary Annesley, com quem se casara. Desta vez, vinha como missionário, interessado em estabelecer uma escola com pedagogia americana, o que veio a ocorrer efetivamente em sua própria residência na então Província de São Paulo, no bairro da Luz.

A escola que surgia diferenciava-se das demais em vários pontos: meninos e meninas estudavam juntos, todos os castigos estavam abolidos e as lições eram estudadas em silêncio para que os alunos pudessem refletir sobre elas, e não decorá-las, como ocorria na pedagogia católica[ii]. A escola primaria também pela não discriminação, fosse ela religiosa, racial ou política.

Esta história missionária poderia limitar-se a formação de uma instituição religiosa protestante, cujo todo esforço e trabalho resultasse em seu próprio crescimento. Mas a proposta missionária não era tão ingênua assim, como podemos observar pelo próprio relatório da Board of Foreign Missions de Nova York em 1859. Cabe observar, que a decisão de encaminhar o missionário Simonton para o Brasil, pertiu deste mesmo relatório.

“Já há algum tempo que a comunidade cristã tem tido sua atenção voltada para o Brasil como campo atraente para o trabalho missionário, com apelo especial às igrejas evangélicas deste país. O território brasileiro é mais vasto que o nosso; o clima é igualmente variado e saudável; o solo se presta tanto a produtos de clima temperado como de clima tropical; a população ainda é relativamente pequena; os recursos, ricos e vários; ainda estão em grande parte inexplorados. Mas há forças em ação, tanto na Europa como no Brasil, que rapidamente atraem ao último grande número de imigrantes. Provavelmente não está l;onge o dia em que o Brasil terá seu lugar entre as nações mais importantes da Terra em população e nos outros elementos de grandeza nacional. Talvez jamais tenha havido época mais oportuna que esta para agirmos.”[iii]

Num primeiro momento, a proposta missionária adequeo-se a política de imigração para o Brasil, aproveitando-se de uma tolerância religiosa, favorecida pela própria constituição vigente no país.

Num segundo momento, a atividade missionária cresceu junto a nova classe social que se formava. Imigrantes dos mais diversos cantos do mundo, unidos em sua diversidade pelo fato de serem, frente ao governo brasileiro, classificados num só grupo, como imigrantes, buscavam naquele momento uma nova identidade na terra que agora os abrigava.

Neste contexto, o casal Chamberlain oferecia uma proposta de educação sem discriminação religiosa, racial ou política. Em outras palavras, criava um espaço onde os diferentes poderiam encontrar sua unidade, independente de serem católicos ou não, de serem negros, brancos ou asiáticos, independente de serem monarquistas ou republicanos. Independente até de esrem ricos ou pobres, pois a manutenção da escola ficava a cargo da Junta das Missões Estrangeiras de Nova York, e só pagavam mensalidades aqueles que tinham condições econômicas para tal.

No início da década de 1890, a então chamada Escola Americana, contava com vários internatos, um Curso de Preparatórios (intermediário entre o secundário e a formação acadêmica) e um Curso de Comércio. A partir de então, caracteriza-se em terceiro momento no crescimento da instituição.

Conta a história, que em 1890, o advogado norte-americano John Theron Mackenzie, que durante sua vida acompanhou em jornais os escritos de José Bonifácio de Andrada e Silva sobre mineralogia, deixou em seu testamento, uma soma em dinheiro para a construção de uma escola de engenharia no Brasil, que fosse organizada aos moldes das escolas americanas. Pouco mais do que isso, se sabe deste advogado.

No entanto, sabe-se que esta doação fora recebida pela Junta das Missões de Nova York que, em convênio com a Universidade de Nova York organizaram a implantação da escola no Brasil. Seria mais um curso associado a Escola Americana implantada pela família Chamberlain.

A arquitetura do edifício a ser construído, o maquinário necessário para as aulas e até o mobiliário, foram trazidos dos Estados Unidos. Também os diplomas de conclusão do curso, vinham da Universidade de Nova York, como se os alunos tivessem se formado lá.

A primeira turma de engenheiros formou-se em 1900. A partir de então, novos profissionais foram sendo lançados no mercado de trabalho da engenharia civil, urbana e industrial.

Neste momento que podemos caracterizar como um terceiro período do trabalho missionário, o então Mackenzie College, como ficou conhecida toda a instituição, tomou a frente do próprio crescimento urbano de São Paulo. O currículo do curso da Escola de Engenharia era objetivo e pragmático, colocando então os alunos formados por aquela Escola, como profissionais bem qualificados no mercado. (E ESTA É A CARACTERÍSTICA DO ENSINO E DOS PROFISSIONAIS DO MACKENZIE ATÉ HOJE - CRITICADOS PELO MEIO ACADÊMICO E ADORADOS PELO MERCADO). Muitos deles trabalhavam para o próprio governo de São Paulo, enquanto outros dedicavam-se, através de firmas constituídas, a construção civil.

Na época, não só a Escola de Engenharia do Mackenzie formava engenheiros em São Paulo; em 1894, dois anos antes de sua inauguração, havia sido criada a Escola Politécnica de São Paulo, também com o objetivo de atender ao crescimento urbano da capital paulista.[iv] (DAÍ A RIVALIDADE EXITENTE ENTRE MACKENZIE E POLI ATÉ OS DIAS DE HOJE)

O que nos chama a atenção no entanto, é o fato de tratar-se o Mackenzie, de uma instituição religiosa. As universIdades católicas, por exemplo, tiveram geralmente início, com cursos superiores de teologia, filosofia ou oUtros cursos na área das ciências humanas.

O próprio edifício onde funcionou originariamente a Escola de Engenharia do Mackenzie, possui em sua pedra angular a inscrição “Ás sciencias divinas e humanas”. Do lado de dentro o assunto era tecnológico.

Esta dicotomia no entanto, entre religião e tecnologia, desaparece quando se observa a ética do trabalho implicita na filosofia protestante.

“É necessário notar (...) o fato de a Reforma não ter implicado na eliminação do controle da Igreja sobre a vida cotidiana, mas antes na substituição do controle vigente por uma nova forma”.[v]

“(...) o Homem deve, para estar seguro de seu estado de graça, trabalhar o dia todo em favor do que lhe foi destinado. Não é, pois, o ócio e o prazer, mas apenas a atividade que serve para aumentar a glória de Deus.”[vi]

Neste sentido a criação da Escola de Engenharia do Mackenzie, ao contrário de significar uma ruptura do trabalho missionário da Junta das Missões Estrangeiras da Igreja Presbiteriana de Nova York, representou o auge do trabalho, levando ao pragmatismo, a essência da filosofia cristã protestante.

Referências Bibliográficas:

[i] GARCEZ, Benedicto Novaes. O Mackenzie. São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1970, cap2.

[ii] MACKENZIE, Instituto Presbiteriano. Mackenzie, 126 Anos de Ensino. Valores acima do tempo. São Paulo, Instituto Presbiteriano Mackenzie, 1997.

[iii] LESSA, Vicente Themudo. Annaes da Primeira Egreja Presbyteriana de São Paulo (1863 - 1903). São Paulo. s.ed., 1938

[iv] NAGAMINI, Marilda. “Construção de Edifícios e Engenharia Urbana”. in: MOTOYAMA, Shozo (org). Tecnologia e Industrialização no Brasil. Uma perspectiva histórica. São Paulo, UNESP, 1994. págs 115-123.

[v] WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. 4º edição, São Paulo, Livraria Pioneira Editora, 1985, p. 20.

[vi] Ib. Idem, pág 112.

2 comentários:

Carmen disse...

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Carmen disse...

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