11 de mai de 2008

AQUA: primeiro referencial técnico brasileiro para construções sustentáveis




Fundação Vanzolini apresentou, no início de abril/08, a primeira norma brasileira para certificação de construções sustentáveis e está pronta para fornecer o selo AQUA - Alta Qualidade Ambiental a quem atender aos critérios necessários.


No dia 3 de abril, a
Fundação Vanzolini - instituição privada, sem fins lucrativos, criada e gerida pelos professores do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) - apresentou o primeiro selo de certificação de construções sustentáveis adaptado à realidade brasileira.Inspirado no selo francês HQE, o AQUA - Alta Qualidade Ambiental foi desenvolvido pelos professores da Escola Politécnica e pode ser lido na íntegra no site da GEA Construction - Global Environmental Alliance for Construction -, uma associação voltada para o compartilhamento de informações e conhecimento científico entre países que, além do Brasil, inclui França, Itália e Líbano, entre outros.

A idéia de elaborar um referencial técnico brasileiro surgiu a partir do projeto de pós-doutoramento de Ana Rocha Melhado e acabou se tornando um convênio internacional. Manuel Carlos Martins, coordenador executivo do AQUA, explica a escolha pelo modelo francês: "Os franceses estão bem avançados em termos de certificação para construções sustentáveis, então pegamos o processo amadurecido. Além disso, a França tem uma história de parceria com a Poli e se dispôs a abrir todo o seu trabalho para que pudéssemos aproveitá-lo. A Europa é mais abrangente e profunda em questões ambientais e nossa identificação foi maior com eles".


AQUA


As preocupações com os impactos ambientais gerados pelos edifícios, durante as fases de planejamento e construção, ou durante a operação, são cada vez maiores. Tanto que já existem vários selos internacionais para verificar os recursos consumidos, as emissões de carbono e os resíduos gerados pelas edificações, bem como o conforto e a saúde das pessoas que convivem ali. Para isso, é feita uma avaliação sobre o grau de sustentabilidade dos edifícios, baseada em critérios específicos de cada selo.


O AQUA é o primeiro selo que levou em conta as especificidades do Brasil para elaborar seus 14 critérios - que avaliam a gestão ambiental das obras e as especificidades técnicas e arquitetônicas. São eles:


Eco-construção- relação do edifício com o seu entorno- escolha integrada de produtos, sistemas e processos construtivos e- canteiro de obras com baixo impacto ambiental.


Gestão- da energia- da água- dos resíduos de uso e operação do edifício e- manutenção: permanência do desempenho ambiental.


Conforto- higrotérmico- acústico- visual e- olfativo.


Saúde- qualidade sanitária dos ambientes;- do ar e- da água.


"A certificação é uma ferramentas que garante credibilidade à obra. Trata-se de uma assinatura verde para o mercado, e é atraente para banqueiros e construtoras", comenta Patrick Nossent, presidente da Certivéa, certificadora francesa. Segundo ele, não existe um limite de sustentabilidade para a construção. O certificado demonstra o desempenho do edifício e os esforços feitos para a redução do consumo de água, energia, CO2 e matérias primas, e para o aumento da qualidade de vida das pessoas envolvidas.


No Brasil, a Fundação Vanzolini, que trabalha com a certificação de Sistemas de Qualidade desde 1990, é quem vai emitir o selo AQUA e já está pronta para as demandas de certificação - de edificações novas ou para grandes reformas. A organização não vai oferecer consultoria.


VANTAGENS DE UM REFERENCIAL BRASILEIRO


Alguns empreendimentos brasileiros, com o objetivo de obter condições de concorrer internacionalmente, vem adquirindo, nos últimos anos, o certificado norte-americano do Green Building Council, LEED - Leadership in Energy and Environmental Design. No entanto, há pressupostos e critérios - relacionados à legislação, clima e fontes de energia, por exemplo - que nem sempre condizem com o nosso país.Para adquirir o LEED, é necessário ir até os EUA.


O AQUA é obtido aqui mesmo e a auditoria é feita na própria obra, com acompanhamento de todas as fases da construção - programação, concepção e realização.O Green Building se baseia na soma de pontos para fornecer o selo, enquanto o AQUA faz a avaliação a partir dos 14 critérios citados acima e a obra recebe uma classificação entre bom, superior e excelente:


Bom: corresponde ao desempenho mínimo aceitável para um empreendimento de Alta Qualidade Ambiental.


Superior: corresponde a boas práticas de sustentabilidade.


Excelente: corresponde aos desempenhos máximos constatados em empreendimentos de Alta Qualidade Ambiental.


"Aconselhamos que os empreendimentos não pensem no mínimo a ser atingido e, sim, em que categorias vale a pena investir para ser considerado bom, superior ou excelente", explica Martins.Outra vantagem do selo brasileiro é a liberdade arquitetônica. Contando que se atinjam os resultados exigidos pelo AQUA, as soluções encontradas por cada empreendimento podem ser variadas. "Dá para flexibilizar, sem perder a exigência", diz Martins.O método utilizado por essa certificação também é interessante porque, apesar de, atualmente, haver um referencial técnico apenas para escolas e escritórios, outros setores podem manifestar interesse pelo selo.


Nesse caso, o empreendimento que quer se enquadrar nos padrões AQUA serve como piloto: as escolhas são feitas a partir do referencial básico e passam pelas adaptações necessárias. Depois, a eficiência do edifício é testada na prática. Se atender às exigências, ganha a certificação - e ainda passa a servir de referência para as demais construções daquele setor. Tanto que o primeiro caso brasileiro em vias de certificação é o hotel The Reef Club, em Pernambuco. Com o interesse em fazer o papel de second home para europeus - e competir com opções portuguesas e espanholas -, o hotel precisava atingir os níveis de exigência desse público. A certificação baseada no selo francês veio a calhar. Atualmente, o empreendimento avalia em quais categorias é economicamente viável ser considerado excelente. Entre as iniciativas, está prevista a redução da poluição do rio que passa pelo local e estudos para que a população carente da região possa se beneficiar com projeto.


"A vantagem de ser o pioneiro, é a possibilidade de se aprofundar mais nos estudos específicos para aquele setor, apesar dos desafios de adaptação", lembra Manuel Martins. Segundo o coordenador, depois que se aprende a fazer as adaptações, fica mais fácil construir os próximos edifícios, inclusive a custos mais baixos.


DAQUI PRA FRENTE


Experiências de construções certificadas têm mostrado que, em poucos anos, um empreendimento recupera o que foi investido no projeto: com economia de água, de energia e em manutenção de equipamentos, e com uso do material adequado. Também existe um aumento concreto de produtividade dos empregados pelo fato de trabalharem com conforto, saúde e segurança.


A idéia é que, daqui pra frente, cada vez mais, tenhamos setores preocupados em construir de maneira sustentável. "Até termos bairros, cidades e países sustentáveis", sugere Patrick.


Nos últimos cinco anos, as construções fizeram progressos consideráveis, mas ainda será necessário mudar o paradigma: ao mesmo tempo em que as construtoras estão sob pressão para projetar e construir em um curto espaço de tempo e a custos baixos, o grande desafio será fazê-lo sem deixar de lado as reflexões necessárias para garantir qualidade e sustentabilidade às edificações. Além disso, por enquanto, a certificação avalia os procedimentos até a entrega do prédio, sendo que, mais de 80% do consumo acontece em sua fase operacional. Portanto, é preciso pensar em medidas para certificar a obra durante sua vida útil.


Uma das novidades para um futuro bem próximo é a construção de edifícios que funcionem como filtros de ar - tanto para que o ar chegue limpo a seu interior, como para que seja devolvido limpo à atmosfera. Com tantas demandas - e tantas possibilidades de inovação - será necessário formar, desde já, profissionais que sejam capazes de propor boas soluções de engenharia e arquitetura a custos viáveis.


fonte: Por Thays PradoPlaneta Sustentável - 09/04/2008

Nenhum comentário: