1 de jun de 2008

Sustentabilidade - Entrevista com o Eng Nelson Kawakami




A era da sustentabilidade instalou-se definitivamente no mundo e o Brasil dá os primeiros passos em direção ao universo verde. Enquanto instituições privadas, governamentais e ONGs empenham-se em campanhas de conscientização da população, o segmento da engenharia e da arquitetura ganha uma entidade específica para normatizar e certificar as construções: o Green Building Council Brasil (GBCB).

O principal desafio dessa ONG é difundir o conceito de sustentabilidade na construção civil no país, nos próximos anos, além de tropicalizar as diretrizes do sistema Leadership in Energy & Environmental Design (Leed), o mais reconhecido mundialmente na avaliação e na certificação dos chamados green buildings.

Para explicar as atividades do novo GBCB, Finestra entrevistou seu diretor executivo, o engenheiro Nelson Kawakami. “A sustentabilidade não cria nada novo, mas resgata coisas que já existiram. Deverá vir, certamente, por bem ou por mal. A partir da década de 1970, o meio ambiente se viu invadido por prédios inadequados ao conforto ambiental, mas agora todos estão preocupados em recuperar as antigas questões, pensar na função do edifício, além da forma”, afirma Kawakami.

Ele cita o pensador húngaro Ervin László: “A globalização e a mudança do mundo chegaram a um ponto que é o caos ou o mundo sustentável”.

De maneira geral, no Brasil, as preocupações com os temas ambientais aumentaram muito?

As pessoas passaram a se preocupar muito com a sustentabilidade no Brasil porque o assunto tem ocupado mais espaço na mídia e chamado a atenção de vários setores, inclusive o da construção civil. Vale lembrar que até 2006 havia poucos edifícios registrados no sistema Leed e em 2007 já temos 47 processos registrados de obras em execução para passar por auditoria em busca da certificação. Há um único prédio no Brasil que já a possui: o do Banco Real, agência Granja Viana, em Cotia [SP], o primeiro da América do Sul. Agora teremos concluídos os edifícios Eldorado Business Tower, em processo de certificação, e o Rochaverá, ambos em São Paulo , além dos Ecolifes residenciais no bairro do Butantã, também na capital paulista.

Quando foi criado o Green Building Council Brasil?

Em março de 2007. Ele começou a operar em junho, já com toda a formalização junto ao World Green Building, uma organização internacional que tem como meta fazer a expansão dos escritórios do Green Building Council ao redor do mundo. O primeiro escritório foi aberto nos Estados Unidos e os processos brasileiros foram registrados lá. Os 47 processos em andamento estão seguindo as normas e especificações americanas, porém adaptadas às características do Brasil.

"Até 2006 havia poucos edifícios no Brasil registrados no sistema Leed e em 2007 foram 47 processos para passar por auditoria"

Como ocorreu esse processo se quando esses edifícios foram projetados não existia a organização no Brasil?

Existem vários GBC no mundo. O primeiro foi nos Estados Unidos, o USGBC. Foram eles que desenvolveram a ferramenta Leed. Todos esses processos atualmente estão sendo registrados no sistema Leed americano e vão continuar assim, pois a certificação está centralizada nos Estados Unidos. O primeiro GBC foi criado em 1993. Alguns países, como Japão e Austrália, têm sistema de certificação próprio. Outros, como Canadá, México e Brasil, resolveram adotar o Leed. E estão no processo inicial de adaptá-lo para cada um desses países. Mas, por enquanto, o Banco Real, já certificado, e os outros 46 edifícios estão sendo feitos no sistema norte-americano. Por isso existiu antes uma possibilidade de certificação.

Essas 47 edificações registradas estão distribuídas por quais regiões?

No Brasil todo. Nas regiões Sul, Centro- Sul e no Nordeste, inclusive em Natal e no Ceará. No Centro-Oeste, apenas em Brasília, onde um bairro residencial, no setor noroeste, está surgindo e foi solicitado registro para certificação.

"Rino Levi, há mais de 50 anos, já se preocupava com essas questões de ventilação e iluminação, no desenho arquitetônico"

O que é, exatamente, o Leed?

É uma ferramenta que dá as diretrizes para mensurar o grau de sustentabilidade de cada prédio. De acordo com o índice a ser atingido, será determinada a pontuação do edifício e o grau de certificação. Pode ser um certificado simples ou nas classificações prata, ouro e platina. E dentro de cada uma delas existem as diretrizes de espaço onde o prédio será implantado, infraestrutura do local, oferta de transporte público e questões como se a área era contaminada e foi recuperada, estacionamento e acessos facilitados ou não, como o metrô. Outra diretriz refere-se à eficiência energética - potência de iluminação, automação, sistemas de leitura. Há também a eficiência no manejo da água, a não-utilização de água potável para irrigação, reúso da água da chuva, tratamento de esgoto.

Quais os outros critérios que entram na avaliação?

A qualidade ambiental interna também é avaliada a partir da verificação de itens como uso de materiais de forte odor (verniz, cola), emprego de madeira certificada, materiais reciclados etc. Um item especial é chamado de inovações, ou seja, a introdução de novas tecnologias que reforcem o caráter de prédio sustentável.

E quanto à arquitetura?

Existem arquitetos, como Norman Foster, que criam na própria arquitetura soluções para utilização de ventilação natural, de modo a minimizar o uso de ar condicionado. Isso é considerado pelo Leed?

Isso está incluído na diretriz que trata do meio ambiente, na qual quanto mais renovação do ar, melhor, a edificação ganha mais pontos. Quanto mais utilizar luz natural, teto com isolamento térmico e jardins que ajudam na absorção do CO2, enfim, uma série de recomendações, maior a pontuação. Tudo isso vai determinar o grau de sustentabilidade do edifício. A parte de arquitetura é distribuída em vários itens - vista externa, telhados verdes etc. Todos esses requisitos levam à criação de um projeto de arquitetura integrado. A sustentabilidade não cria nada novo, mas resgata coisas que já existiram. Rino Levi, há mais de 50 anos, já se preocupava com essas questões de ventilação e iluminação, no desenho arquitetônico. Mas nem todos tinham essa mesma linha. Hoje estamos tentando teorizar em cima de tudo isso e fazer com que a sociedade reflita sobre o meio ambiente, que, a partir da década de 1970, se viu invadido por prédios gigantescos, com sistemas de ar condicionado muito sofisticados e inadequados ao conforto ambiental. Perdeu-se a linha que agora está sendo recuperada. Todos estão preocupados em retomar as antigas questões, pensar na função do edifício, além da forma.

Existem normas específicas brasileiras direcionadas para a questão dos edifícios sustentáveis e de produtos?

Com relação a produtos, não entramos nesse mercado, mas o Instituto Falcão Bauer está desenvolvendo um sistema de certificação deles. Estamos fazendo para o Brasil a tropicalização do Leed. Diversas atividades já têm normas brasileiras específicas, como, por exemplo, a recuperação de solos, com recomendações técnicas. Vamos buscar referências nessas normas. Outro exemplo é a norma de resíduos de construção, que dá orientações de como proceder. O que não existe ainda é algo que feche tudo isso, que seria o sistema Leed de certificação, dando todos os parâmetros para depois consultar as normas nacionais.

Quais seriam as adaptações a fazer em função da realidade brasileira, ou seja, a chamada tropicalização?

Quanto ao aspecto técnico, não há adaptações profundas a serem feitas, porque muitas normas brasileiras são baseadas nas norte-americanas. Mas existem algumas coisas a serem adaptadas de acordo com o nosso ambiente. Por enquanto, há uma comissão analisando o assunto para, depois, concluir o trabalho. Talvez o item que mais chame a atenção seja a responsabilidade social. Nos Estados Unidos não dão muita ênfase a isso, mas no Brasil acho que teremos de fazer uma distinção, colocar a questão em destaque, dar pontuações para quando a empresa trabalhar com a comunidade. Esse aspecto social talvez seja incentivado pelas normas.

"Pesquisas nos Estados Unidos mostram o aumento de produtividade e a diminuição de doenças em ambientes mais confortáveis"

Essa comissão é ligada ao GBCB?
Sim. Foram criados vários comitês, como os de captação de membros, avaliação do Leed, marketing e vendas, materiais, fiscal e auditoria, de educação e eventos, e o comitê de relações governamentais e institucionais.

Para a edificação, quais as vantagens da sustentabilidade?
A edificação ganha em funcionalidade, em performance, em energia, em facilidade de conservação. O usuário ganha em conforto e, conforme pesquisas realizadas nos Estados Unidos, há um aumento de produtividade por causa da diminuição de doenças, num ambiente mais confortável. Nas escolas, o nível de aproveitamento dos alunos cresceu 20%. Lá, já existem 8 mil prédios certificados, correspondendo a 1 milhão de moradias.

"Ao adotar os parâmetros do Leed, a construção de um edifício comercial padrão tem seu custo reduzido em até 5% sobre o total"

O empreendedor parece estar mais pautado pela questão do custo, e não pelas necessidades e bem-estar do usuário.

Se pensarmos no ciclo de 25 anos de vida de um prédio, 80% do custo é operacional e 20% de construção. Então, se você reduz os custos da operação - energia, água etc. -, o empreendedor terá vantagens com a sustentabilidade. Se você fizer uma análise financeira de um ciclo completo, ele será sempre positivo, caso essas medidas sejam adotadas. A diferença é que no Brasil estamos acostumados a olhar somente os dois ou três primeiros anos de um prédio, enquanto nos Estados Unidos eles enxergam mais longe.

E no caso do empreendedor que constrói para vender, como ocorre no Brasil, o que pode ser atrativo na sustentabilidade?
O Leed tem uma modalidade específica para os investidores, porque essa preocupação já existe no mercado brasileiro, pois um certificado que contém esses parâmetros de sustentabilidade é mais valorizado. Tanto que esse empreendedor é mais procurado para novas obras. A demanda é maior, o potencial de venda cresce muito, inclusive porque o condomínio desses prédios é cerca de 40% mais baixo. Existe uma redução significativa de custo condominial e isso se reflete nas vendas. De 3% a 5% de sobrevalorização no aluguel obtém-se com a redução operacional e a velocidade de vendas também é maior. O importante mesmo é a conscientização e o posicionamento das pessoas, porque a redução de custos é um fator fundamental, mas a mudança de postura é o que conta. Isso porque o mundo todo necessita, urgentemente, de atitudes mais positivas com relação ao meio ambiente. É preciso repensar a maneira de proceder daqui para a frente.

Com relação ao custo de construção, o que muda?
Ao adotar os parâmetros do Leed, a construção de um edifício comercial padrão, com 20 andares, tem seu custo reduzido em aproximadamente 5% sobre o total. Em termos residenciais, o percentual cai para 2%.

Quais as principais dificuldades, no Brasil, para a implantação de uma obra sustentável?
A principal dificuldade é a obtenção de materiais e alguns tipos de serviço adequados aos conceitos exigidos. Os fornecedores talvez sejam os que precisam de um período de maturação um pouco maior. Isso porque, enquanto está em projeto, o papel aceita tudo, mas quando vai para a obra enfrenta dificuldades. Em algumas cidades, há limitações quanto a materiais. Se for em São Paulo ou na Região Sul, os problemas são bem menores. Mas não é nada conveniente pegar um material aqui em São Paulo e transportá-lo para uma obra em Manaus. Aí acaba com a sustentabilidade queimando petróleo daqui até lá. Além do que, vai gerar poluição.

É então necessário desenvolver fornecedores em nível nacional?
Os grandes fornecedores já têm essa rede de distribuição. E, com o aumento da demanda, o panorama deve se modificar. Por exemplo, quando começamos a fazer projetos de bancos, havia apenas um fornecedor de tintas praticamente sem cheiro e agora, no final do ano, já tínhamos quatro. A demanda está aumentando e o mercado vai atrás.

"A edificação ganha em funcionalidade, em performance, em energia, em facilidade de conservação"

O que distingue essa tinta daquela normalmente utilizada no mercado?
Ela tem um composto orgânico volátil e sem cheiro. Nas tintas normais, o cheiro desaparece em uma semana, mas os componentes químicos ficam no ar por seis meses. Isso causa mal à saúde, tanto de quem aplica, quanto dos usuários.

Qual o trabalho que o GBCB faz em relação a essa área de produtos?

Existe um comitê de materiais que estuda o assunto e verifica as demandas e carências da área. Por exemplo: outros tipos de revestimento, de tinta, de fornecedores de forro. Aí as empresas começam a desenvolver esse mercado, ir atrás de tecnologia, para atender à demanda nacional. A idéia do GBCB é começar a sinalizar aquilo de que o mercado está precisando, dimensionar as demandas e as necessidades e discutir com os fornecedores as possibilidades. A Deca lançou no Brasil, há uns três anos, a válvula de duplo fluxo, que foi tirada do mercado pois não havia demanda. Recentemente, começou a haver procura por esse produto, que passou a ser importado, e agora a Deca fez novo lançamento, para atender às solicitações.

Há algum sistema de capacitação para o trabalho das construtoras?
Temos realizado cursos para algumas empresas, o que representa um grande apoio educacional. Mas não existe um certificado de construtora verde. O que há é a certificação do prédio. O que temos feito em algumas empresas ou obras públicas é oferecer suporte educacional. Esse é o nosso papel principal, atuar fortemente na formação de pessoas com esse conceito, junto às empresas que trabalham com a construção civil.

De maneira geral, e não apenas na construção civil, tudo é verde, tudo é sustentável. O sistema econômico está realmente interessado na preservação do meio ambiente ou é mero modismo?

Tem um pouco de moda, mas é inevitável que a parte econômica leve isso em conta, porque se hoje ainda é viável, amanhã não será mais. Então quanto mais cedo os conceitos de sustentabilidade começarem a ser aplicados, não só na construção civil, como em outros setores, mais fácil será ter um mundo mais sustentável. Porque isso virá certamente, por bem ou por mal. Um pensador húngaro contemporâneo, Ervin László, afirma: “A globalização e a mudança do mundo levaram a um ponto que é o caos ou o mundo sustentável”. A definição e a velocidade com que isso ocorrerá vão depender da capacidade e da rapidez do ser humano em se adaptar a essas novas funções. Porque não tem jeito - algum dia haverá uma crise. E não queremos crise, queremos sustentabilidade. Então é importante o homem começar a se reposicionar rapidamente. Já existem vários elementos econômicos que levam à certeza de que vale a pena adotar a sustentabilidade. Além disso, as pessoas precisam querer trabalhar para que as mudanças aconteçam o mais rápido possível. A prefeitura de São Paulo agora exige aquecimento solar em novos empreendimentos a partir de determinado tamanho. É bom lembrar que muitas normas existem, mas ninguém leva em consideração, talvez até por desconhecimento. Por isso, acho que a legislação precisa ser mais clara.

"O mundo todo necessita, urgentemente, de atitudes mais positivas com relação ao meio ambiente"

A reciclagem de PET tornou-se uma febre, mas de forma artesanal. Há alguma produção industrial direcionada para a construção civil?

Sim, há uma indústria que faz tubos de esgoto, em São Paulo , criada para atender à demanda, pois as primeiras tubulações vieram da Argentina.

O Eldorado Business Tower tem um pré-certificado Leed. Em quanto tempo o edifício receberá a certificação oficial?

Depois que acaba a obra, a demora é de quatro a seis meses para certificar, porque é preciso verificar se o funcionamento do prédio está atingindo a meta ou se é necessário fazer o “condicionamento melhorado”. É feito todo tipo de condicionamento, testes, análises. Até então, o prédio tem apenas a pré-certificação.

A propaganda de lançamento de alguns empreendimentos usa a certificação como atrativo de vendas. Mas não é isso que ocorre, então?

Na verdade, eles não têm a certificação, e sim a pré-certificação, que é um compromisso. E o comprador deve cobrar o cumprimento da promessa de certificação e analisar bem as pessoas que estão prometendo, verificar a idoneidade da empresa.

Quais os cuidados que a empresa deve ter quando se apropria dessa imagem como instrumento de venda?

Trata-se de uma pré-certificação. É preciso deixar claro que a certificação só será dada no final da obra. Quando a empresa é conhecida no mercado, todo mundo sabe que ela vai honrar o compromisso. A idoneidade é fundamental, a certeza de que ela cumprirá o que está prometendo.

"Uma válvula de descarga de duplo fluxo foi lançada e retirada do mercado há três anos, e agora está voltando porque há demanda"

E no caso daquelas empresas que se aproveitam dessa onda verde, mas não cumprem efetivamente esse compromisso?

No momento em que a empresa se compromete com um processo de sustentabilidade, já demonstra a mentalidade de implantar todos os itens que tornam a edificação verde. A idéia de sustentabilidade já tem embutida a lisura do processo. Portanto, quem nele se insere necessariamente o faz com convicção. Por isso é muito importante a distinção entre certificação e pré-certificação.

Há algum trabalho em comum entre o GBCB e o Conselho Brasileiro de Construção Sustentável?
Não existe ainda uma grande unidade de colaboração entre as duas entidades, mas podemos trabalhar juntos, com mais integração, porque os objetivos são comuns. Queremos descobrir pontos de apoio, parcerias. Trata-se de um grupo muito forte, tecnicamente muito bem preparado. Temos uma aproximação muito boa.

Publicada originalmente em Finestra - Edição 52 - Março de 2008

Um comentário:

setesetenovenovemeiacincomeiacinco disse...

Engo Kawakami,
PARABÉNS pela estraordinária competências compartilhadas nesta entrevista eficaz sobre "Sustentabilidade"--agrega valor às carreiras e estratégias de negócios de forma a potencializar informações a todos nós!
Muito bom mesmo!
Eudio Braz do Amaral, Diretor de Estratégias e Negócios--ESPECIFICASERV.