1 de ago de 2008

Empreendimentos verdes ganham cada vez mais espaço em São Paulo

Eng Luiz Henrique Ceotto -Head Brasil da Tishman Speyer

O setor da construção civil está cada vez mais se adequando aos conceitos de sustentabilidade que estão se impondo em todos os setores da economia. Várias empresas, que vão de serviços de consultoria a grandes construtoras de imóveis, tanto comerciais quanto residenciais, vão, aos poucos, desenvolvendo expertise nessa área, em um movimento que ganhou força nos últimos cinco anos.


Os conceitos de sustentabilidade em edificações incluem eficiência do uso de água e de energia, tratamento de resíduos, uso de materiais certificados, reciclagem de materiais, conforto ambiental interno para os futuros ocupantes e diversas outras medidas que garantam economia para o usuário final e preservação do meio ambiente antes, durante e após a obra. Alguns empreendedores preocupam-se em requerer certificados que atestem a sustentabilidade da obra, como o LEED (Leadership in Energy & Environ-mental Design), que é concedido pelo US Green Building Council (GBC), com sede em Beverly Hills, nos Estados Unidos, ou o AQUA (Alta Qualidade Ambiental), resultado de uma parceria entre a Fundação Vanzolini e o instituto francês Centre Scientifique et Technique du Bâtiment (CSTB). Outros apenas adotaram conceitos sustentáveis como filosofia empresarial e incorporam essas idéias no dia a dia de seus negócios. Todo esse cuidado ambiental acaba resultando em aumento de custos nas obras, impactando também no preço final do imóvel. Os empreendedores, entretanto, defendem que o aumento do custo é compensado depois da ocupação do imóvel, com a redução dos gastos operacionais gerada pelas medidas de economia previstas nos projetos. "A obra é mais cara mas a operação é mais barata", afirma Luiz Henrique Ceotto, diretor de design e construção da Tishman Speyer. Ele calcula que uma edificação sustentável pode ter custos de construção de 4% a 8% mais altos que uma obra convencional, mas afirma que esse método gera uma economia de 30% a 35% nos custos operacionais, como água e energia elétrica, o que pode ser pago em dois a três anos. A incorporadora Tishman Speyer está com dois grandes empreendimentos comerciais em processo de certificação para conseguir o selo LEED: o Rochaverá, em São Paulo, em parceria com a construtora Método, e o Ventura, no Rio de Janeiro, que tem como parceira a Camargo Corrêa Desenvolvimento Imobiliário (CCDI). No Ventura Corporate Towers foram adotados itens como vidros especiais na fachada para minimizar a troca de temperatura e consequentemente reduzir o consumo de ar condicionado além de diversas outras exigências do GBC como uso de materiais recicláveis na obra e madeira certificada pelo Forest Stewardship Council (FSC). A incorporadora Ecoesfera desenvolveu um sistema de construção padronizada para imóveis residenciais, os chamados Ecolife que envolvem até 16 itens diferentes de sustentabilidade. "Isso nos viabilizou a trabalhar com ganho de escala", explica Luiz Fernando Lucho do Valle, presidente e fundador da Ecoesfera. São três produtos padronizados em três faixas diferentes de preços. Os edifícios com marca Ecolife têm apartamentos com preços de venda de R$ 210 mil a R$ 400 mil e agregam 16 conceitos de sustentabilidade. Os prédios chamados Ecoway, que têm apartamentos entre R$ 110 mil e R$ 200 mil, incorporam 12 itens sustentáveis e os da marca Ecoone, com unidades que vão de R$ 80 mil a R$ 100 mil, têm nove aspectos de sustentabilidade. Dois empreendimentos da marca Ecolife estão em processo de certificação para receber o selo LEED, segundo Valle. A Ecoesfera agrega itens de construção que, na prática, encareceriam a obras, mas Valle explica que a empresa faz parcerias e consegue negociar os preços nas compras dos materiais em escala. Um desses itens é a esquadria das janelas com persianas de alumínio que se abrem 100% permitindo vão inteiro livre para entrada de iluminação natural. "Isso faz uma diferença enorme para quem vai morar lá", afirma o empresário, destacando nesse item o conforto ambiental, maior ventilação dos cômodos, evitando uso de ar condicionado, e maior iluminação natural, reduzindo consumo de energia elétrica. O fundador da Ecoesfera destaca, entretanto, que o lado mais louvável do trabalho da empresa foi a criação do Instituto Ecomoradia que desenvolve trabalhos de educação ambiental nas comunidades onde a construtora atua para despertar a conscientização dos cidadãos para a responsabilidade de todos em relação ao meio ambiente e à sustentabilidade. No ano passado a Merryll Lynch adquiriu 50% da Ecoesfera Participações, que é a holding do grupo que agrega a Ecoesfera Empreendimentos Sustentáveis, a Ecohome Construções Sustentáveis e a E-home Consultoria Imobiliária. A RMA Engenharia, responsável pela obra do laboratório Delboni que foi o segundo empreendimento a receber o Leed no Brasil", o primeiro foi a agência do Banco Real em Cotia, região metropolitana de São Paulo e especializou-se em obras sustentáveis e tem uma engenheira em sua equipe que é certificada pelo LEED americano como habilitada a desenvolver projetos sustentáveis. Segundo Renato Auriemo, sócio da RMA, os maiores desafios que a empresa enfrentou nessa área foram os de conseguir parceiros qualificados e aptos a participar do processo e mudar a cultura dentro da própria empresa. Uma das maiores vantagens desse segmento, segundo Auriemo, é o ganho de imagem para o cliente que vai ocupar uma edificação sustentável. A RMA está com mais dois projetos sustentáveis em estudo. A incorporadora Esser fez seu primeiro projeto sustentável no bairro de Vila Nova Conceição, um alto padrão com apartamentos de R$ 3 milhões que incorporou conceitos de sustentabilidade como captação da água da chuva em um poço de retenção para ser reutilizada nos jardins, descargas e lavagem dos carros dos futuros moradores. Além disso não será usado cloro no tratamento da água. Ao invés disso foi instalado um aparelho na entrada da caixa d''água para ozonizar a água que vai ser usada desde a piscina até as torneiras e chuveiros. O aquecimento será solar com uma bomba de recirculação da água para que os moradores não precisem deixar a água escorrendo por um longo período antes que a água quente chegue em suas torneiras. Segundo Maurício Ribeiro, gerente de marketing da Esser, todo o material usado no apartamento modelo do plantão de vendas foi reciclado ou doado a uma ONG (Organização Não Governamental). A Torre SP, prédio comercial que faz parte do "Complexo JK" e que foi vendida em junho pela WTorre Empreendimentos para abrigar a nova sede do banco Santander, também está em processo de certificação para receber o LEED. Segundo Rosa Pezzini, gerente e desenvolvimento de produtos e arquitetura da WTorre, a empresa tem outros quatro empreendimentos em fase de certificação, mas ela destaca que mesmo nas obras que não entraram com pedido para receber o LEED a empresa igualmente adota conceitos sustentáveis como reciclagem e redução de desperdício de materiais durante a obra.(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 1)(Amarilis Bertachini)

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