25 de ago de 2008

O PERFIL DO ENGENHEIRO AO LONGO DA HISTÓRIA

DILBERT - A SÁTIRA DO TÍPICO ENGENHEIRO


Se você for engenheiro ou está estudando engenharia , vale a pena ler este longo artigo resultado do trabalho acadêmico de:

Fernando Schnaid , Fernando F. Barbosa, Maria I. Timm
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Av. Osvaldo Aranha, 99 – 90035-180, Porto Alegre – RS
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O artigo reflete sobre as características pessoais dos engenheiros, em vários
momentos do desenvolvimento da sociedade e da tecnologia, desde a Idade da Pedra,
passando pela Revolução Industrial e chegando à chamada Era da Globalização. Mesmo
que a atividade desses indivíduos, transformadores das condições ambientes e geradores detecnologia pouco desenvolvida, não possa ser enquadrada nas definições correntemente
aceitas de engenharia, é possível identificar um perfil que se assemelha ao do profissional
que hoje chamamos de engenheiro.


1. INTRODUÇÃO
1.1. Cabeça de engenheiro: espírito prático e ciência
Considerado um dos executivos mais influentes da atualidade, depois de liderar a
reestruturação da Renault e, desde 1999, encarregar-se da recuperação da japonesa Nissan,
(no final de 2000 já apresentava indicadores de que seria bem sucedido), o empresário
brasileiro Carlos Ghosn tem um conselho singelo aos jovens empreendedores. Podem
começar a vida tirando Engenharia, diz ele, e terão uma boa base para administrar negócios de
qualquer natureza. Em entrevista publicada na Revista Veja de janeiro de 2001 [8], ele dizia
que “’é preciso ter cabeça de engenheiro para manter-se atualizado com tantas tecnologias
novas sendo desenvolvidas”. Cabeça de engenheiro é uma expressão corrente, às vezes para
definir uma qualidade – caso do entrevistado, que identificou o engenheiro ao perfil do
empreendedor capaz de enfrentar desafios de grande porte – ou um defeito. Os que
consideram cabeça de engenheiro um defeito, costumam referir-se a uma certa objetividade –
considerada excessiva pelos que formulam essa idéia - no trato de questões de qualquer
natureza. Muito cálculo, muita frieza de raciocínio, muita falta de emoção... é a queixa...
Refletir sobre a identidade do engenheiro talvez deva ser o primeiro passo para
aqueles que querem contribuir para a formação do futuro profissional dessa área, não apenas
como alguém qualificado a desempenhar uma função produtiva e de liderança no mercado de
trabalho, mas como um ser humano de múltiplas facetas, capaz de compreender, aceitar,
defender e melhorar a percepção – e a realidade – do que significa cabeça de engenheiro.
Também pode ser bom para jovens aspirantes a engenheiro refletirem sobre essa identidade,
observando em si mesmos as características da profissão, as habilidades e até mesmo as
dificuldades que, ao que parece, tendem a ser associados aos engenheiros... como por
exemplo a facilidade nos cálculos ... a dificuldade de escrever ou se expressar... a habilidade
manual... a tendência a visualizar os fenômenos antes de descrevê-los sintática ou
matematicamente... A lista pode ser bem grande (complete-a você mesmo, leitor, com boas ou
más impressões...).
O objetivo desse artigo é percorrer alguns exemplos da história da humanidade, até o
presente, identificando um personagem comum: o engenheiro, quer ele tenha sido chamado
dessa maneira ou não. Esse exercício pode servir para a construção de uma identidade, um
perfil do engenheiro, cuja natureza externa se adapta e/ou transforma o seu tempo e o
desenvolvimento científico e tecnológico desse tempo e dessa cultura, mas cuja natureza
interna guarda sempre algumas semelhanças. O encontro com esse velho personagem também
pode contribuir para que o engenheiro do terceiro milênio saiba se reconhecer no seu papel de
construtor das condições de vida e conforto dos habitantes do planeta, manter o olhar preciso
e a ação objetiva que caracterizaram sua inserção ao longo da história e acrescentar a eles as
novas habilidades permitidas – exigidas – pelo novo tempo.
2. DESENVOLVIMENTO
2.1. Curiosidade e observação da natureza
Usando uma metáfora, talvez se poderia pensar que o engenheiro contemporâneo é
filho de um casamento muito bem sucedido entre o espírito prático dos homens, que já no
tempo das cavernas lascavam pedras para construir armas e utensílios rudimentares, com a
ciência moderna, calcada na observação, na mensuração e na conseqüente capacidade de
formulação de leis e modelos de comportamento dos fenômenos físicos. É possível imaginar
que entre os lascadores primitivos havia algum que provavelmente percebia, de forma
rudimentar, a diferença entre a dureza das várias pedras que lascava. É possível também que
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percebesse a necessidade de opor pedras de graus de dureza variados, para obter uma lasca
um pouco mais afiada... Talvez fosse aquele que observasse a lasca produzida acidentalmente
a partir da pedra quebrada e identificasse nela um lado mais afiado, útil para quebrar ou raspar
a casca do fruto, por exemplo. Essa capacidade de observação, mesmo empírica, baseada na
experiência de quem realizava a operação, poderia ser o diferencial na hora de um
enfrentamento do grupo com a necessidade de abater um animal, ou de acessar sua carne, por
exemplo, ou mesmo no enfrentamento com outro grupo, interessado em dividir com o nosso
engenhoso ser pré-histórico o mesmo alimento. Note-se aqui que o termo “engenhoso” não
significa a engenharia sistematizada e apoiada em cálculos matemáticos e considerações
científicas. Significa uma postura, um olhar curioso e uma ação, uma intervenção nas
condições concretas, pela modificação ou uso de materiais que estão à sua disposição. Pode
ter sido essa capacidade de observação que guiou empiricamente alguns homens préhistóricos
na escolha das pedras mais resistentes – sílex - , o que garantiu a sobrevivência de
instrumentos rudimentares, por milhares de anos, permitindo que os estudiosos reconstituam o
tipo de vida e o conhecimento existente entre os membros dos grupos humanos da Idade da
Pedra.
Se o leitor flexibilizar seu conceito de tecnologia e de indústria, poderá imaginar um
primo muito distante do engenheiro atual, pertencente à espécie que hoje é designada “homo
erectus”. Há dois milhões de anos, ele produziu e usou ferramentas toscas (pontas, martelos e
enxadas rudimentares), que não precisaram ser modificadas, ao longo de milhares de
gerações, porque serviam exatamente às necessidades de sobrevivência do grupo. Esse
conjunto de itens tecnológicos (possivelmente associado a utensílios de couro e cascas de
ovos ou árvores, que não sobreviveram à ação do tempo), hoje chamado indústria de Olduvai
(em função do local onde se situa, na África), serviu para prover a fantástica capacidade de
sua locomoção do grupo, estimada em 10 quilômetros a cada geração, suficiente para que os
“erectus” ganhassem o status de nômades. [Haaf,1979]
Ao perseguirem a caça e os melhores frutos, em baixa velocidade de locomoção, os
grupos nômades observaram um fenômeno curioso: o fogo, produzido pelo raio que incendeia
a savana. Se todos viram o fogo, alguns (os curiosos-engenhosos?) tiveram a idéia de que bem
poderia ser domesticado, para gerar luz e calor nas cavernas escuras e úmidas, afugentar os
animais... e sabe-se lá o que mais... Aprisionar o fogo era tarefa que exigia certamente um
pouco de habilidade manual. Mais fácil deve ter sido descobrir, na prática, que também servia
para melhorar o gosto da carne. E mais engenhoso descobrir a qualidade do fogo para
endurecer as ferramentas. Já manter o fogo aceso, antes de aprender a produzi-lo, deve ter
exigido uma boa dose de gerenciamento, já que as brasas vivas eram um tesouro pertencente
ao grupo, que deveria alimentá-las ao longo de inúmeras gerações. A propósito, “manter o
fogo aceso” é uma das funções que a pré-história do Rio Grande do Sul também registra, no
grupo dos M’bias guaranis que habitaram a região muito antes da civilização. Cabia às
mulheres da tribo essa tarefa.
No caso dos nômades, cabia aos membros mais confiáveis de cada tribo transportar e
conservar a preciosa fonte de energia: a promessa de fogo, que só seria completamente
cumprida milhares de anos depois, quando os homens de espírito prático não se contentaram
apenas com a manutenção das brasas e, por acaso ou teimosia, dominaram as pederneiras
para produzir faíscas e gerar novos focos de fogo. Feito isso, com uma boa trilha sonora e um
belo efeito especial – nos moldes “2001, Uma Odisséia no Espaço”- o humano grava na pedra
(e depois no silício) sua nova identidade de cidadão do planeta, capaz de transformar
observação em pensamentos e idéias e traduzi-los, na prática, em conforto para si e para seu
grupo (e isso não é exatamente o que fazem os engenheiros, quando transformam matériaprima
em produto?).
2.2. Solução para problemas práticos
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Mais adiante, talvez um descendente do lascador de pedras ou do fazedor de fogo
manifestou-se quando alguém precisou transportar uma grande presa abatida em caçada ou,
por exemplo, uma grande quantidade de madeira para fazer fogo ... Sabe-se lá por que método
de observação da natureza - uma pedra redonda, ou um tronco de árvore rolando com
facilidade encosta abaixo ... - , conexão de idéias, intuição ou algum outro processo mental,
mas certamente foi um ancestral do engenheiro quem visualizou uma solução possível e
adaptou uma roda rudimentar ou uma alavanca, para facilitar o deslocamento. Lá estavam o
espírito prático, a capacidade de visualização do problema e de sua solução, a observação dos
fenômenos, a habilidade manual...
Alguma coisa faltando?
E se procurássemos mais alguma idéia no mais antigo dos livros e ponto de partida da
cultura ocidental, a Bíblia?
Vejamos: a quem, senão a um proto-engenheiro, o Criador demandaria, por exemplo,
que construísse “...uma arca de (...) de trezentos côvados de comprimento”, com “um andar
de baixo, um segundo e um terceiro”. Pois quem ouviu a ordem divina, o mitológico Noé,
certamente deveria ser observador, curioso e habilidoso como seu ancestral, e também deveria
já ter agregado uma outra característica: ser dado à precisão das medidas e ter confiança na
própria engenhosidade para aceitar o desafio de fazer sustentar um andar sobre o outro e além
disso, sustentar à arca, ele próprio, sua família e as espécies animais do planeta sobre a água,
em um fantástico desafio de engenharia civil, naval e de logística, uma vez que Noé também
deveria pensar na sobrevivência de toda a tripulação por 40 dias, dentro da arca. Experimente
pensar em estoque de comida para atender às necessidades de espécies tão distintas;
dimensionar as condições sanitárias; a navegabilidade da arca; a manutenção de sua estrutura;
o gerenciamento da circulação interna e um verdadeiro sem-fim de problemas, e isso sem
pensar nos dilemas éticos, morais, legais e – pelo menos no exemplo bíblico – religiosos. Um
problema complexo, com muitas variáveis, convenhamos: coisa para uma cabeça de
engenheiro...
E já que lembramos logística (uma área que hoje faz parte dos estudos em engenharia
de produção), vamos fugir dos exemplos tradicionais de edificações (as pirâmides egípcias e
os templos gregos) e saltar do relato bíblico para o planejamento das ações militares, na vida
real. Na Roma antiga, legiões de combatentes precisavam ser movimentadas ao longo dos
territórios do Império. E com elas as tendas, os alimentos, a água, os animais, os carros, os
servos, as armas, as munições e a infinidade de seres e utensílios afins a tais empreitadas. Era
preciso avaliar e otimizar as condições de estradas, captação de água, saneamento dos
acampamentos, manutenção dos armamentos e outros itens igualmente fundamentais para
definir a posição entre vencidos e vencedores. Não se chamavam engenheiros ainda esses
senhores que sabiam, por exemplo, como fazer para desviar o curso de um rio, através de
diques, para permitir ou impedir uma passagem; ou podiam garantir aos generais que a
catapulta seria suficientemente robusta para lançar a pedra à distância necessária. Mas se não
eram “engenheiros”, talvez possam pelo menos se considerar parentes distantes dos
profissionais de engenharia, porque lidavam com problemas complexos; calculavam, com os
conhecimentos da época, as condições de implementação de soluções; desenvolviam soluções
a partir de condições e de materiais existentes; desenvolviam estratégias para alterar
resistência, dureza e outras características desses materiais. Em resumo: resolver problemas...
Mas todos esses exercícios de imaginação, a rigor, ainda não definem a cabeça de
engenheiro nos padrões de objetividade que devem fazer parte da exigência de alguém
como... um engenheiro. Seria preciso observar, descrever, medir, quantificar, comparar... ou
seja, agregar ciência ao processo empírico de solução de problemas.
2.3. Definição e breve histórico da Engenharia
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Seriam todos os indivíduos acima mencionados engenheiros? Para responder esta
pergunta faz-se necessária uma definição de engenharia. Uma que serve bem a nossos
propósitos é a de Smith[7]: “Engenharia é a arte profissional de aplicação da ciência para a
conversão ótima dos recursos naturais para o benefício do homem.” Se, como Lewis[2],
definirmos ciência como “a busca da verdade através da observação e da experimentação”,
poderemos concluir que nossos antepassados pré-históricos ou, pelo menos, alguns deles,
eram engenheiros. Baseados, fundamentalmente, na observação empírica conseguiram,
usando os recursos que a natureza proporcionava, construir ferramentas e outros objetos para
uso e benefício de seu grupo.
Um projeto de engenharia cujo produto mantém sua grande importância até nossos
dias ocorreu ainda no período neolítico, a agricultura. Os coletores de produtos vegetais
observaram a periodicidade do desenvolvimento das plantas comestíveis, determinaram as
variedades com maior produção e tomaram uma decisão surpreendente: devolver à terra parte
dos grãos colhidos na esperança de vê-los multiplicados. Esta “revolução Copérnica”[2]
originou, entre outros efeitos importantes, o assentamento permanente das tribos, a
domesticação de animais para serem usados como fonte permanente de alimentos, a
possibilidade da especialização profissional e o início de um comércio de trocas, resultando,
finalmente, no aparecimento das cidades.
O aparecimento das cidades e a especialização profissional trouxeram de arrasto o
crescimento da metalurgia. As cidades mostraram a necessidade da fabricação de novos
artigos, alguns utilitários, outros artísticos. Paralelamente ao uso da cerâmica, a
especialização permitiu que a cadeia produtiva necessária a produção de artigos metálicos
pudesse ser implantada: prospectadores, mineiros, forjadores, transportadores e finalmente os
artesãos. Nos seus primórdios, a metalurgia baseou-se no uso de metais disponíveis em forma
nativa, posteriormente no uso de minérios cuja purificação era possível dentro das limitadas
temperaturas conseguidas nos fornos da época e cujos resultados dependiam essencialmente
das características do minério ou liga e não do tratamento térmico. A metalurgia do ferro,
extremamente dependente do processo a que era submetido o minério, desenvolveu-se mais
lentamente.
Desde então, a evolução da engenharia tem seguido a evolução da ciência: estradas,
pontes, barragens, edificações, engenhos de guerra, canalizações de água e esgoto e muitas
outras obras de engenharia foram construídas baseadas nos conhecimentos ainda empíricos
disponíveis aos engenheiros das diversas épocas. Algumas destas obras ainda desafiam os
pesquisadores pela dificuldade de relacionar seu porte com o ferramental técnico e científico
disponível a seus projetistas. Entre estas podemos citar as pirâmides que se desenvolveram
em diferentes e longínquas civilizações. O cultivo de algumas ciências na Grécia Clássica
permitiu que os proto-engenheiros pudessem basear suas obras em algo muito semelhante ao
que hoje entendemos como ciência. A geometria desenvolvida em algumas escolas
filosóficas gregas proporcionou grande desenvolvimento à mecânica, trazendo como
conseqüência a diminuição do necessidade do trabalho manual. Engenhos mecânicos, como as
roldanas e o moínho giratório, facilitaram a realização de tarefas que até então empregavam
grande número de animais de tração ou mesmo seres humanos.
Durante a dominação romana que se seguiu, a tônica foram obras ligadas ao
transporte, ao abastecimento de água potável e à arte da guerra. Muralhas, estradas, viadutos e
aquedutos, gigantescos cortes em rocha e máquinas e implementos de guerra construídos
durante a expansão do Império Romano ainda podem ser admirados hoje, comprovando a
solidez dos conhecimentos de engenharia de que dispunham.
A queda do Império Romano do Ocidente trouxe, entre outras conseqüências
importantes, o declínio da ciência e da tecnologia na Europa. As obras romanas foram
abandonadas, bem como a tecnologia por eles empregada, resultando em uma qualidade de
vida inferior à existente até então. Algumas práticas já conhecidas dos romanos, como o uso
de moinhos de água, prosperaram por sua utilidade para o sistema social da época. Outras
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foram criadas, como o uso do arado pesado, as indústrias da lã e do vidro e o uso do carvão
mineral na metalurgia, proporcionando o crescimento do uso do ferro como material para
fabricação de diversos utensílios.
O centro tecnológico do mundo ocidental deslocou-se para Bizâncio e para os países
árabes. O planejamento urbano, o contínuo desenvolvimento da construção civil, a retomada
do uso de barragens e canais para regular o fluxo de água, as indústrias têxtil, naval e do
papel, os moinhos de vento e a produção química são frutos desse longo período da história
da busca de conhecimentos novos para a melhora da condição humana. Muitas vezes os
conhecimentos eram insuficientes para o porte das obras, o caso mais famoso provavelmente,
sendo o da Torre de Pisa...
2.4. A ciência como método e a simulação
O final da Idade Média trouxe consigo um novo estilo de ciência, mais adequado à
definição da National Academy of Sciences[6]: “O objetivo da ciência é buscar uma
explicação naturalista dos fenômenos”. Até então a maior parte da atividade científica se
resumia na coleção de informação obtida de maneira empírica, como já tinham feito os
antepassados. A procura da explicação por trás dos fenômenos observados constituiu-se, daí
por diante, na tarefa primordial do cientista. E a conseqüente formulação e comprovação de
teorias armou o engenheiro com uma nova e poderosa ferramenta: a possibilidade de prever o
comportamento de seus projetos e experimentos sem a necessidade de construí-los antes.
Aliada à experiência adquirida ao longo de uma vida profissional, a ciência possibilitou ao
engenheiro, a partir desse momento, procurar atender ao requisito “ótimo” presente na
definição anteriormente citada. Ótimo, entre outras coisas, também presume econômico, ou
seja, as menores quantidades de material e mão-de-obra necessárias para que o produto
funcione bem.
O desenvolvimento da ciência e o progresso da engenharia viabilizaram o que hoje
chamamos de simulação, primeiro através dos cálculos e das representações gráficas e hoje,
graças à sofisticação do processamento e das interfaces gráficas dos computadores, através
dos modelos dinâmicos que antecipam e testam cenários para fenômenos térmicos, químicos,
mecânicos e outros. As possibilidades da simulação são aplicáveis também a outras áreas fora
do âmbito de atividade dos engenheiros, como a medicina e a farmácia.
2.5. Não são máquinas...
Há aproximadamente 300 anos, o homem protagonizou a criação de uma nova
sociedade. Forjada nas chaminés e linhas de montagem, a revolução industrial modificou as
relações sociais e a organização do trabalho, valorando os bens consumo e de capital e
caracterizando a estrutura econômica pela troca de mercadorias. O pulmão desta revolução é
movido com energia proveniente do carvão, gás e petróleo, utilizados na propulsão de um
gigantesco avanço tecnológico. Novas máquinas foram diretamente ligadas ao sistema de
produção em massa, produzindo aço, ferro, têxteis, produtos químicos e componentes
elétricos e, com eles, roupas, automóveis, aviões, arranha-céus, armamento pesado e
computadores. Uma geração de jovens constitui-se na nova força de trabalho, arregimentada
na tecnologia eletro-mecânica – e no centro desta transformação encontra-se o engenheiro,
produto e representante maior desta sociedade (e talvez, por isso, muitas vezes culpabilizado e
hostilizado em algumas análises sobre as lacunas na dimensão humanista do processo
tecnológico-industrial).
Coincidindo com uma fase de intensa disseminação de idéias e de conhecimento
(propiciada, a propósito, pelo domínio de tecnologias, cujo desenvolvimento, deve ter custado
boas horas de observação e construção das melhores soluções de alguém muito engenhoso...),
a institucionalização do perfil do engenheiro convencional também correu o mundo, quem
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sabe acarretando algum esboço ainda inconsciente do que seria a cabeça de engenheiro
referida no início desse trabalho. Não por acaso, também ocorre nesse período da história (ao
redor do final do Século XIX) uma separação radical (e talvez irreal) entre a ciência e a
filosofia, com suas respectivas áreas de influência jogadas para cada lado: a ciência, por
positiva, carrega o bônus e ônus do desenvolvimento tecnológico; e a filosofia, por crítica,
encampa todas as áreas de humanas e se opõe ao que se anuncia como des-humano. A crítica
aos processos industriais mecanizados, repetitivos, insalubres, predadores da humanidade e da
natureza, destinam-se também àqueles que usaram e aplicaram sua ciência para a “conversão
ótima dos recursos naturais”: os engenheiros. Sem descuidar da certeza da perversidade dos
modelos sociais e políticos gestados no caldo de cultura da revolução tecnológica que marcou
o Século XX, não custa lembrar que nesse período a população do planeta descobriu as
vantagens da comunicação telefônica, do transporte aéreo e da climatização dos ambientes,
sem falar no cinema e nos computadores, todos esses itens acessíveis – em maior ou menor
grau – a uma população decuplicada, com expectativa de vida potencializada através de
processos que exigiram muita ciência e muito espírito prático. Ou alguém imagina que o
Festival de Woodstock teria a mesma capacidade de sensibilização do público sem o trabalho
de vários engenheiros de som, que amplificaram e distribuíram o fantástico rock’n roll
eletrônico das guitarras?
Mas isso já é coisa do século passado...
2.6. ... homens é o que são
Neste início de milênio, uma nova civilização está emergindo na chamada era pósindustrial,
trazendo consigo novos estilos de vida, uma nova economia, profundas mudanças
profissionais e conflitos políticos de outra natureza. Diz-se desta nova civilização que o
capital intelectual passa a ser sua força motriz, imagens e idéias passam a constituir-se no bem
de maior valor agregado. Pensadores e cientistas políticos, como por exemplo Domenico di
Masi, redefinem os paradigmas do mundo trabalho, incluindo neles a criatividade, o lazer e a
humanização como itens necessários e simultâneos à eficiência. Sugerem que nesta nova
sociedade o engenheiro tradicional perde espaço, na medida que a venda de conceitos gera
recursos superiores à venda de bens e mercadorias.
É crença dos autores, ao contrário do que parece sugerir di Masi, que a engenharia,
enquanto área do conhecimento, não só não perde espaço como situa-se no epicentro do
processo de transformação das sociedades, tanto industrial quanto pós-industrial. Algumas
provas dessa idéia podem ser detectadas na importância do papel que o ensino de engenharia e
outras ciências exatas passam a ter nas últimas décadas, nos países que lideraram a revolução
econômica e tecnológica do final do Século XX.
Milititisky[4], quando define o impacto da atividade de engenharia e seu ensino sobre
a economia dos países, sugere que o que está em jogo é provavelmente a própria
sobrevivência econômica dos países. Segundo este autor, não há dúvida que a reengenharia do
ensino das ciências exatas nos Estados Unidos, na década de 80 do século passado, foi
motivada pela constatação de que as empresas, indústria e serviços norte-americanos não
estavam sendo competitivos em escala global, perdendo terreno para os japoneses, alemães e
tigres asiáticos. Atuando de acordo com a natureza pragmática de sua cultura, os engenheiros
e professores de engenharia norte-americanos acataram o desafio proposto na época pelo
Comitê de Engenharia da National Science Foundation (NSF): aumentar a competitividade
das empresas para aumentar a geração de riquezas e melhorar a qualidade de vida dos
cidadãos do país, pela qualificação dos seus programas de ensino. O país vencedor, pela ótica
exposta em conferência da instituição, seria aquele que tiver superávit em sua balança de
pagamentos e combinar este superávit com aumento de qualidade de vida do povo, do PIB e
da renda per capita. A receita passava (e ainda passa) pelo reconhecimento do papel
fundamental da engenharia e do domínio da tecnologia no desenvolvimento econômico. Nos
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países vencedores, mesmo no Século XXI, engenheiros ainda são entendidos como agentes de
transformação da sociedade e a própria sociedade deve ser capaz de reconhecer neles esta
contribuição.
Para se localizar nessa nova geografia econômica e tecnológica que vem sendo
chamada de era pós-industrial, entretanto, talvez não baste apenas o espírito prático, a boa
capacidade de observação e o livre trânsito pela ciência básica e suas aplicações. Mapear a
cabeça de engenheiro, hoje, implica reconhecer nela outras qualidades e habilidades, até
então talvez pouco necessárias, como a comunicabilidade, a intuição, o bom gerenciamento
das relações humanas e as diversidades culturais, a ética e a responsabilidade social e
ambiental. Tome-se por base as recomendações da ABET– Accreditation Board for
Engineering and Technology, instituição norte-americana que procura estabelecer critérios de
qualidade específicos para cada habilitação, concentrando-se nos atributos comuns esperados
de todo profissional de engenharia. Cada programa de graduação deve ser capaz de
demonstrar que seus graduados em engenharia tenham: capacidade para aplicar conhecimento
de matemática, ciências e engenharia; capacidade para projetar e conduzir experimentos,
assim como analisar e interpretar resultados; capacidade para projetar um sistema,
componente ou processo para atender a determinados requisitos; capacidade para atuar em
equipes multidisciplinares; capacidade para identificar, formular e resolver problemas de
engenharia; compreensão da ética e responsabilidade profissional; capacidade para
comunicar-se efetivamente (por escrito, oral e graficamente); uma educação ampla, necessária
para entender o impacto das soluções da engenharia no contexto social e ambiental; a
convicção da necessidade do engajamento no processo de aprendizagem permanente;
capacidade para usar técnicas e ferramentas modernas para o exercício da prática da
engenharia.
Supondo-se que todas as sugestões da ABET pudesssem ser implantadas de forma
integral e eficiente, num apertar de botões, ainda assim não estaria suficientemente completa a
cabeça de engenheiro necessário para enfrentar os desafios pós-industriais. Em países como o
Brasil, também deverá ser capaz de enfrentar as barreiras impostas pelo domínio tecnológico
das nações mais avançadas, em vários setores da economia, e compreender as nuances da
economia globalizada. Finalmente, para entender a necessidade de formação e o perfil
desejável do engenheiro, hoje, é necessário desmistificar a própria Engenharia enquanto área
do conhecimento. De ciência ou profissão determinística, dogmática, na qual há necessidade
de se renunciar à complexidade da natureza e de seus fenômenos físicos, passa a ser o
domínio da complexidade e da incerteza
Se refletirmos sobre o significado de complexidade, como a extrema quantidade de
interações e de interferências entre um número muito grande de unidades, que desafiam as
nossas possibilidades de cálculo, veremos que este se aplica rigorosamente à Engenharia, na
medida em que temos que conviver cotidianamente com as incertezas decorrentes da
modelagem da natureza. De fato o engenheiro lança mão de soluções analíticas na solução de
seus problemas, porém, parafraseando René Thom, o determinismo na ciência não pode ser
visto neste caso como um dado, mas como uma conquista. A engenharia exige sim a adoção
de uma racionalidade crítica, mas definitivamente deverá estar misturando intuição,
flexibilidade e experiência ao conhecimento formal.
2.7 – Instrumentalizar a atitude
Possivelmente o descendente contemporâneo do proto-engenheiro lascador de pedras,
se viver no Brasil, no ano de 2001, estará com boa parte de sua curiosidade, observação e
desejo de resolver problemas voltado para o consumo de energia elétrica e os programas de
racionamento e racionalização de uso. Ele (ou ela) não hesitarão em sair do banho mais rápido
para rabiscar um mecanismo de controle da temperatura da água do chuveiro que lhe ocorreu,
assim... por intuição. A diferença em relação ao seu ancestral é que o engenheiro terá hoje, à
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sua disposição, os transdutores de potência já desenvolvidos, para transformar sua idéia em
realidade: os equipamentos eletrônicos, as informações disponíveis, os catálogos e manuais.
Trata-se, possivelmente, da mesma natureza curiosa, da afinidade com os cálculos e as
precisões, do gosto pela objetividade e da tendência a observar os fenômenos ao seu redor
para transformar (para melhor) o ambiente. Mas se, como os autores propuseram no início do
artigo, refletir sobre a identidade do engenheiro deva ser o primeiro passo para melhor formálos,
pela geração de um ambiente de aprendizado capaz de estimular as características e as
habilidades que definem esse perfil e além disso dar conta de todas as novas exigências
geradas pela sociedade pós-industrial, é forçoso que se perguntem se os cursos de engenharia,
hoje, no Brasil, oferecem esse ambiente, ou se, ao contrário, ainda é possível encontrar alunos
desmotivados e prontos para deixar seus cursos, apesar de possuírem legítimas e férteis
cabeças de engenheiro?
Algumas mudanças já foram realizadas pelas universidades brasileiras para adequar a
formação dos alunos ao perfil considerado ao novo engenheiro. Hoje, por exemplo, a idéia de
que o profissional de engenharia deve trabalhar isolado, disseminada nos cursos até as
décadas de 60 e 70 do século passado, já está irreversivelmente ultrapassada. Os alunos são
estimulados ao trabalho em equipe desde os primeiros anos de sua formação. Também já são
coisa do passado os currículos integralmente obrigatórios, nos quais disciplinas como
topografia ou geologia tinham que ser compulsoriamente freqüentadas por alunos de todas as
áreas de engenharia. Hoje, há uma boa flexibilidade propiciada pela oferta cada vez mais
diversificada de disciplinas eletivas. A revolução promovida pela informática e os
paradigmas da globalização econômica estão sendo incorporados à cultura acadêmica, apesar
do tempo elástico da implantação de novas culturas. Um tempo, aliás, incompatível com a
velocidade das mudanças estruturais.
A questão de maior relevância precisa ainda ser respondida – as mudanças estruturais
apontadas são suficientes para recolocar as universidades no caminho da modernidade
atendendo aos paradigmas acadêmicos necessários à formação do engenheiro do Século XXI?
A reposta é infelizmente negativa, pois os cursos de engenharia continuam engessados à
estrutura curricular formatada nas décadas de 50 e 60. Ainda são cursos prioritariamente
informativos, apesar do fato de que a informação está hoje inteiramente acessível e os
conteúdos disponibilizados em múltiplas mídias, inclusive na internet. Há boas iniciativas
individualizadas, em várias universidades, sobre como tornar esse ensino mais formativo,
capaz de instrumentalizar a atitude curiosa e observadora do engenheiro, transformando-a em
uma saudável cultura de busca autônoma de informações, apropriação e uso do conhecimento
para tomada de decisões e flexibilidade na escolha por soluções criativas e inovadoras [5].
Mas como já ensinaram as experiências de outros países, são necessárias mudanças
institucionais, percebidas como processos integrados às necessidades da economia e da
sociedade, capazes de realmente fazer diferença na valorização do engenheiro como agente
potencializador da qualidade da vida dos cidadãos. O grande desafio é a necessidade de uma
formação básica adequada que sirva de alicerce à formação continuada, à atitude do autoaprendizado,
do olhar criativo e flexível, da curiosidade e do prazer pela busca do
conhecimento, de si mesmo e do mundo.
3 – CONCLUSÕES
É forçoso reconhecermos que estamos lamentavelmente despreparados para enfrentar
os desafios impostos pelas novas tecnologias e necessários à formação do engenheiro do
Século XXI. Talvez seja preciso que os professores e pesquisadores do ensino de engenharia
observam o processo de ensino/aprendizagem também como um complexo problema de
múltiplas variáveis a serem modeladas dinamicamente, gerando possivelmente soluções de
várias (e algumas novas) áreas de engenharia - a engenharia pessoal, a engenharia econômica,
a engenharia do conhecimento – cada uma das quais com sua respectiva ciência e tecnologia.
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Talvez também seja indispensável que os próprios professores sejam permeáveis a vivenciar
em si mesmos os processos de auto-conhecimento, desenvolvimento de habilidades de
comunicação, estímulo à curiosidade e ao auto-desafio, transformando os foros de produção e
discussão dessa da pesquisa em ensino em ambiente obrigatoriamente interdisciplinares.
Talvez tenham que instrumentalizar sua atitude cotidiana, como professores de engenharia,
através do aprendizado (contínuo e permanente) dos modernos conceitos da psicologia, da
pedagogia, da cognição, da comunicação, da arte e da cultura contemporâneos e tantos outros.
Possam ensinar, como Chaplin, no filme Tempos Modernos: “Não sois máquinas... homens é
o que sois...”. Flexibilizar-se, sem perder o espírito prático e o olhar da ciência.
Sobretudo é urgente reconhecer a responsabilidade de encaminhar as discussões sobre
a formação do engenheiro para a formulação de ações que disseminem as novas idéias e
definam as estratégias e políticas de implantação de mudanças.

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