10 de ago de 2008

O toque feminino leva capricho ao canteiro de obras




Será um tendência???


O trabalhador com baixa qualificação tem cada vez menos oportunidades de emprego. Até mesmo a construção civil, tido como um setor que absorve rapidamente um grande contingente de desempregados sem qualificação, está mais seletiva. Hoje, saber ler e escrever é requisito importante na contratação do peão de obra que antes só a tinha a oferecer a força física.


Com a mudança no modo de erguer edifícios e grandes obras de engenharia, como estradas e hidrelétricas, construtoras viraram montadoras de estruturas pré-fabricadas preparadas pelas indústrias e padronizaram cada etapa da construção.Com isso, ganharam importância cursos de qualificação que se tornaram rotina nas grandes empresas.


Também já há construtoras que passaram a admitir mulheres para funções que até pouco tempo atrás eram essencialmente masculinas. São azulejistas, soldadoras ou operadoras de guindaste. A habilidade feminina em tarefas que requerem precisão e capricho é um sinal de que o perfil do peão de obra mudou.


Eliana da Silva Araújo, de 20 anos, que há seis meses trabalha como ajudante de azulejista numa construtora em São Paulo, é o retrato dessa revolução. Com o 2.º grau completo, ela fez um curso gratuito de construção civil na BM&F e conseguiu o primeiro emprego com carteira assinada.


"Antes trabalhava como vendedora e recebia R$ 250 por mês. Agora, tiro líquido R$400", diz. Animada com o novo emprego, Eliana, que mora no Itaim Paulista (SP), acorda às 5h50 e pega 3 conduções até a obra onde trabalha em Moema, bairro da zona sul da capital. "Antes, fazia cursinho pré-vestibular, mas tive de parar. Quero ser arquiteta", planeja a ajudante de azulejista que não se sente constrangida em trabalhar num território masculino: "O emprego está difícil e a construção civil está crescendo muito." Ela já fez curso de leitura de projetos e agora freqüenta as aulas de formação de eletricista na própria obra em que trabalha. "O canteiro de obras mudou com a chegada das mulheres", afirma Denival Silva de Oliveira, de 25 anos, ajudante de almoxarifado de obra. Segundo ele, as operárias provocaram uma competição positiva com os homens, que passaram a caprichar mais no serviço. Casado e pai de um filho, Oliveira chegou há dois anos da Bahia. Começou a trabalhar na construção civil como ajudante de serviços gerais e ganhava cerca de R$ 450 por mês. Ele já sabia ler e escrever, mas decidiu fazer o curso de alfabetização normal, e o de alfabetização digital, que ensina a mexer no computador. Com isso, foi subindo na carreira e hoje, como ajudantede almoxarifado, ganha R$ 700. "Quero fazer supletivo e ser engenheiro." A história se repete com Francisco Antônio Nascimento Silva, de 40 anos, carpinteiro encarregado de obra. Ele chegou da Bahia em 1983, onde era lavrador, e começou a trabalhar em São Paulo como ajudante de obra, a função básica dentro da construção civil. "Eu tinha só até a 4.ª série do 1.º grau." Hoje, como encarregado, ele ganha R$ 1,2 mil e fiscaliza o trabalho dos demais carpinteiros. Silva participou do curso de alfabetização para adultos, de alfabetização digital e recentemente decidiu freqüentar novamente o curso de língua portuguesa. "Do jeito que está, a gente precisa ter um estudo." Boa ação - Além de ascender na carreira, Silva conta que a sua vida melhorou depois que voltou a estudar. "Consigo ler o letreiro do ônibus e o jornal mais facilmente." Ele pondera que até o relacionamento com os colegas mudou, pois agora ficou mais fácil conversar e comprar materiais para a obra. A qualificação dos operários da construção civil não se trata de boa ação das empresas. "Ganha-se dinheiro com responsabilidade social", diz o diretor da Tecnisa Meyer Nigri. Ele argumenta que ao capacitar os profissionais que ganham por tarefa, os operários se tornam mais produtivos e obtêm renda maior no fim do mês. Além disso, cria-se um clima positivo no ambiente de trabalho porque os professores que ensinam os ofícios nos cursos promovidos dentro da obra são profissionais voluntários, mestres e engenheiros, que ao fim do expediente dão aulas para os colegas. "Cria-se um clima de amizade entre o professor e o aluno.Ooperário veste a camisa da empresa." De 75 trabalhadores que concluíram o curso de alfabetização adulta nos últimos 2 anos, por exemplo,apenas 14 deixaram a companhia, o que é considerado um índice baixo de rotatividade. Com 9 obras programadas e em andamento na cidade de São Paulo para os próximos 6 meses, a construtora está investindo neste ano R$ 260 mil em 5 cursos e programas de capacitação, 20% a mais do que no ano anterior. Vão desde cursos de alfabetização adulta, com aulas dadas pelos professores do Senai em salas de aula construídas dentro das obras, até alfabetização digital. Agora a empresa, que já tem 9 operárias, entre 700 homens que trabalham nas obras, pretende ampliar a fatia das mulheres para 5% até 2006. Na construtora CamargoCorrêa, há 350 mulheres trabalhando nas 45 obras que empregam 9,2mil operários. Enes Vilela Marques Faria, gerente de Desenvolvimento Humano e Organizacional da empresa, diz que elas se dão muito bem como soldadoras e operadoras de guindastes de até 30 toneladas. "Elas se dão bem em atividades que exigem capricho e sensibilidade manual." Ele observa que o salário que recebem é equivalente ao dos homens para amesma função. A qualificação é uma das bandeiras da companhia, que praticamente erradicou o analfabetismo. "Hoje temos só 8 pessoas que não sabem ler e escrever nas obras. Há 20 anos, o índice de analfabetismo era de 20%." Ele diz que há orientação para que se evite a contratação de analfabetos. Faria observa que na construção civil pesada a tendência é de reduzir o número de serventes de pedreiro que carregam um saco de cimento nos ombros e ampliar o número de operários com funções mais nobres no processo.


Veículo: O Estado de São PauloCaderno: EconomiaData: 20-06-04

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