16 de ago de 2008

A Semente da Vitória - por Nuno Cobra



Fotos: Nuno Cobra - com seu mais importante cliente - Ayrton Senna




TRABALHANDO O FÍSICO, O MENTAL, O ESPIRITUAL E O EMOCIONAL

“Chegar ao cérebro pelo músculo e ao espírito pelo corpo”

“A modificação do corpo modifica também toda a emoção, todo o espírito”

“Coragem só é mesmo coragem quando sentimos um imenso medo e mesmo assim partimos para a ação”.

“Com auto-estima fortalecida, ganhamos disposição para enfrentar nossos medos”

Nuno Cobra -O Semeador de Vitórias Preparador físico de grandes nomes, como Ayrton Senna, Rubens Barrichello e Abílio Diniz - livro onde mostra os principaisaspectos do seu método, que trabalha não só o corpo mas também a mente e o espírito.

Site Oficial do Autor com maiores informações:
http://www.nunocobra.com.br/

Entrevista SportTV sobre trabalho com Ayrton Senna
http://www.youtube.com/watch?v=zyah_LngfEQ&feature=related


ENTREVISTA REVISTA PLANETA:

PLANETA – Em seu livro, A Semente da Vitória (Editora Senac), você afirma que, quando alguém resgata o poder do corpo, transforma-se mental e espiritualmente. Explique-nos de que maneira isso se dá.

Nuno Cobra – O meu trabalho é uma nova forma de trabalhar o corpo. Eu acredito que, nesta nova era, nós temos de avançar um pouco mais isso. Durante todo o século 20, nós tivemos a ditadura do raciocínio, do intelecto, onde o corpo praticamente não existia. Nos anos 80, quando ele foi descoberto, passou-se a buscar o culto ao corpo. Acho que isso é muito pouco.
A minha proposta é fazer do corpo um caminho para você atingir a pessoa como um todo, para desenvolver o potencial humano, chegando à mente, à emoção e ao espírito. Ele é o que nós temos de mais palpável, de mais concreto, e é o nosso maior patrimônio. Então, as coisas que você faz com ele têm um significado extremamente forte no seu espírito, na sua mente; ficar falando com uma pessoa um milhão de palavras não tem o valor de uma postura, de uma atividade.

PLANETA – A partir do corpo, você trabalha, por exemplo, a auto-estima...
Nuno Cobra – Exatamente. Para vencer o mundo e as pessoas, você tem de vencer a si mesma. As pessoas não se valorizam, não se ocupam com elas próprias. A minha proposta é esse chamamento para o indivíduo se interiorizar, se cuidar. Com isso, vai começar a perceber que ele existe dentro da vida dele. Como você vai trabalhar espiritualmente uma pessoa que não existe? É totalmente sem sentido. Você reza, faz uma porção de orações, mas isso não é trabalhar o espírito; você está ali pedindo sempre, não está dando nada, nem se transformando. Eu tenho uma religião própria: a religião de que você tem de se cuidar.
Todo mundo diz assim: “Mas como é que se desenvolve a pessoa espiritualmente? Fazendo ginástica? É ridículo...” O meu negócio não é fazer ginástica para ficar forte e burro, não, mas dar à pessoa uma filosofia de vida, para que ela comece a se cuidar mais, a dormir e se alimentar melhor. Com isso ela vai estar exuberante diante da vida e vai ser agradável, delicada, vai amar o seu semelhante. Não é que ela vai ser boa para poder ir para o céu, mas porque é bom ser bom, isso lhe faz bem. Ajudar as pessoas é a nossa finalidade aqui na Terra, mas isso não é porque o indivíduo é o máximo, mas porque ele está no seu equilíbrio, vive bem, está centrado.

PLANETA – Uma pessoa desestruturada emocionalmente pode chegar à cura a partir desse trabalho que você propõe?
Nuno Cobra – A emoção é a rainha do corpo, da vida. Eu costumo dizer que o cérebro é completamente burro. Imagine uma pessoa que está querendo emagrecer; ela começa a comer menos, só que o cérebro não sabe. Então, ele conclui o quê? “Bom, a pessoa não comeu, portanto, está perdida no deserto ou está doente. Assim, vai aproveitar duas mil vezes mais o que ela ingeriu. Para emagrecer, a pessoa tem de comer várias vezes por dia. Você vê que é esquisito...
Tudo que está no cérebro, entra em contato com o mundo através dos órgãos dos sentidos; são eles que levam as informações para o cérebro, as quais são guiadas pela emoção. Então, a verdade não existe; existe aquilo que você entende como verdade. Esse cérebro burro é a grande arma para você ter sucesso e ser feliz. Os meus atletas foram os melhores, mas podiam não ser. Só que eles acreditaram que eram. É muito comum, por exemplo, alguém dizer: “Como fulano pode ter tanto sucesso, se ele foi um péssimo aluno?” Só que, quando se formou, ele falou: “Eu sou o máximo.” Foi lá e arrebentou. O outro que estudou pra caramba concluiu: “Eu acho que não sei.” Não adianta o indivíduo saber, se ele sofreu mais as conseqüências do tripé de anulação.

PLANETA – O tripé da anulação é a religião, a educação e os pais...

Nuno Cobra – Sim, é o conjunto estonteante da sociedade que acaba com toda perspectiva de a pessoa ser feliz, ter sucesso e saúde. Nós temos uma cultura da doença, da dor; você nasce para ser triste. As pessoas que representaram Jesus Cristo crucificado foram infelizes; elas poderiam tê-lo mostrado, por exemplo, ascendendo ao céu ou sorrindo com as crianças... Eu vejo Jesus Cristo como um cara muito forte, cheio de músculos, um corpo muito bonito, com um coração espetacular, no sentido fisiológico; ele devia ter um consumo máximo de oxigênio de 50 ml. Porque ele andava feito um desgraçado, não parava, falava, comia pouco – era um verdadeiro atleta, uma pessoa extraordinária. Por que não passam Jesus Cristo com músculos bonitos?

PLANETA – Se você colocar um Jesus Cristo assim, exuberante fisicamente, vão dizer que está fazendo culto ao corpo e esquecendo do espírito....

Nuno Cobra – Há 40 anos eu fazia a mesma coisa de hoje. Há 25 anos, as pessoas falavam assim: “Nossa, Nuno, o seu trabalho é holístico!” Eu não sabia o que era isso, mas achava uma palavra bonita. Agora, há uns 15 anos, as pessoas passaram a dizer que faço um trabalho neurolingüístico, porque uso muito as palavras.
A Ana Mesquita, uma menina que foi fazer a travessia do Canal da Mancha, chegava na metade do percurso e dizia: “Puxa! Ainda falta a metade!” Eu troquei o ainda pelo só. Ou seja, só falta metade; cada metrinho que você fez é um metro a menos. Outra coisa que disse pra ela: “A Terra não é redonda? Depois da metade você vai começar a nadar pra baixo.” O fato é que ela chegou na metade e começou a nadar rapidamente; quando atravessou mais da metade do canal, havia uma corrente. Ela nunca poderia atravessá-la, mas conseguiu! Porque achou que estava nadando pra baixo.
Dizem que isso é neurolingüística, mas isso é Nuno Cobra, a vida inteira eu fiz isso... Agora dizem: “Nuno, o seu trabalho é de inteligência emocional”. Mas eu sempre falei da emoção, e todo mundo meteu o pau... Na década de 60, eu já falava em chegar ao cérebro pelo músculo e ao espírito pelo corpo. Todo mundo me chamava de louco; fui até proibido de dar aula de educação física na USP.

PLANETA – Segundo você, a maioria das pessoas não está doente, mas também não está saudável. Qual é a sua definição de saúde?

Nuno Cobra – Para mim, a saúde não é o estado da não-doença, mas a plenitude da vida; é a pessoa alegre, espiritualizada. Saúde é ver essa manhã ensolarada e contemplar Deus, a beleza, a vida, essa coisa extraordinária que temos de graça. As pessoas estão tristes porque não são saudáveis.
Certo dia, um médico chegou pra mim e disse que estava doente. Ele havia feito tudo quanto é exame e não dava nada. Aí, eu virei pra ele e disse: “Você não está doente; o problema é que você não tem saúde, ou seja, a sua saúde está no limite; nós temos de levá-la para patamares superiores, onde você possa realmente estar longe daquele limite no qual, em contato com a doença, você fica doente. Porque saúde é você estar em contato com a doença e não ter a doença. O Magic Johnson, por exemplo, quando teve Aids, nunca ficou doente, porque ele era saudável.

PLANETA – Você arriscaria utilizar o seu método com uma pessoa que tivesse um câncer, por exemplo?

Nuno Cobra – Nós já tivemos infinitos casos de pessoas com câncer que se curaram. Agora, eu não faço nada, faço um programa de saúde. Não fiz nada para o Ayrton Senna, por exemplo. Eu propus uma argumentação científica, incentivei, mostrando o que ele havia conseguido. Só que ele dizia assim: “Nuno, você tem toda a razão, tudo está nessas cinco letras mágicas, que é o fazer.”
O câncer é uma boa amostragem do que a sociedade moderna conseguiu. Nosso organismo é muito resistente, só que as pessoas conseguem adoecer, porque o cérebro é burro. O indivíduo tanto fala que tem alguma coisa que o cérebro faz alguma coisa. O câncer é fabricado. Da mesma forma, a pessoa que tiver esse mal e fizer um trabalho mental, um relaxamento, acreditando que não tem nada, ela passa a não ter mesmo.
Eu fiquei mais de 40 anos à margem do academicismo, da sociedade, me protegendo. Agora eu resolvi colocar o meu método para o povo. Eu vejo as pessoas na fila do SUS e sei que elas não têm saúde, mas não estão doentes ainda; muitas já chegaram a ficar. Mas todas podem se curar através do método Cobra, que é sono, alimentação, atividade física, relaxamento, meditação e programação mental.

PLANETA – Qualquer pessoa que não tenha acesso a você, se dormir bem, tiver uma alimentação boa e atividade física, vai dar a volta por cima?

Nuno Cobra – Ela consegue pelo seguinte: como é que meu método funciona? Modéstia à parte ele é magistral, porque não precisa de mim. A minha intenção é não ser aquela pessoa que é a bengala. Por que meu livro se chama A Semente da Vitória? Para ficar claro que nós plantamos uma semente. Em muitas pessoas ela frutificou, e esses vieram com um potencial privilegiado, como Ayrton Senna. Outros tinham um potencial menor, mas ele é sempre muito maior do que a pessoa pode explorar. Porque ela acredita pouco nela, devido ao tripé da anulação. Imagine uma pessoa com 20 anos que foi podada, anulada, castrada, vilipendiada pelo pai. A religião, por sua vez, cria o pecado, a dúvida, a iniqüidade, o medo, os complexos de culpa... Essa pessoa não vai mais render nada. Eu passei por esse tremendo tripé e, por ser sensível, percebi isso mais do que as outras pessoas. Por ser um educador durante 32 anos, eu vivenciei essa realidade de massacre que os professores fazem com os alunos. Então, todo mundo, ao invés de jogar para cima, joga para baixo. O mestre deveria ser aquele que vê as coisas boas num mundo de coisas ruins que estão acontecendo.
PLANETA – Você afirma no livro que o elogio – muito pouco utilizado hoje em dia – é um dos atos mais fortes da sociedade. Por quê?

Nuno Cobra – Porque o nosso organismo funciona muito em cima daquilo que nós trazemos à tona na nossa vida diária. Nós temos uma infinidade de aspectos guardados no nosso interior: todo homem é extremamente bom e extremamente mau; todo homem é forte e fraco. A pessoa vai fazer aquilo que a marca, que a reforça ou aquilo que é reforçado nela. Se um pai elogiasse mais o filho, evidentemente dentro da sua cabeça estariam mais presentes os acertos que teve durante a vida – por isso o elogio é a maior força da sociedade.
Na nossa vida, a mente é fundamental; a sua vida vai ser aquilo que você pensa que é. O exercício de uma ação cria uma forma de conduta de vida. Por que o garoto vai para a Febem, de lá para a penitenciária, da penitenciária ele se torna especialista, vai receber pós-graduação em crime? Porque reforçaram nele aquele aspecto; o elogio que ele teve foi por matar um determinado cara, numa distância que não era fácil. Se falassem pra ele: “Puxa, que beleza esse salto que você desenvolveu”, o garoto ia querer fazer salto. Por isso o esporte é a coisa mais forte na sociedade, não feito com a finalidade de ser campeão, mas para a criança ver que ela consegue coisas espetaculares.

PLANETA – Muitos atletas, em excelente forma física, não passam por essa transformação que você consegue com o seu método...

Nuno Cobra – Não passam porque eles vêem o esporte como alta competição, como um fim em si mesmo, o que é péssimo. Quando você tem o esporte como meio, ele é um elemento espetacular, uma forma de educar as pessoas, é o elemento mais extraordinário que a sociedade possui e se devia usar mais isso.

PLANETA – Pensando assim, o professor de educação física, que tem contato direto com o aluno, poderia ser um grande transformador...

Nuno Cobra – Ele é a peça mais importante numa sociedade. Infelizmente a Secretaria da Educação do Estado acabou agora com as aulas de educação física. Através do esporte, você endereça a criança para onde quiser. No jogo, por exemplo, ela tem a bola, aquilo que mais ama, e passa para o outro, que faz a cesta. Ou seja, a criança se realiza na ação do outro; ela cria relações de interação social muito mais fortes do que se assistir a um milhão de aulas teóricas.
Presidiários: recuperação possível a partir da descoberta da auto-estima.
PLANETA – Em que etapa a meditação entra no seu método?

Nuno Cobra – A meditação é um recurso muito útil para a pessoa se interiorizar. Na minha época, existia um tabu muito grande em relação a ela. Eu aprendi a meditar acidentalmente. Eu era acanhado, medroso, franzino e, quando transformei o meu corpo, transformei também minhas emoções, minha mente, meu espírito. Comecei esse trabalho numa ilha. Ali havia uma ponte pênsil que balançava, e sob ela passavam as corredeiras fortes. Quando voltava para casa, eu costumava parar nessa ponte e olhar as águas. E percebi que, fazendo isso, eu atingia outro estágio mental e me sentia muito bem. Então, passei a fazer aquilo rotineiramente.
Quando comecei a fazer o mesmo com os meus atletas, vi que eles alcançavam mais performance, tinham mais recursos de concentração. Mas era difícil falar em meditar há dez anos, porque se acreditava que meditar é para hindu, chinês, etc. Só que a pessoa medita várias vezes por dia e não se dá conta. Então, comecei a usar recursos visuais: uma folhinha balançando ao vento, incenso, etc.
A meditação entra no meu método, normalmente, depois da primeira parte, que é a elaboração de uma estrutura orgânica que começa de dentro para fora. Você vai lá no coração, que é o músculo número um, para o qual ninguém liga, mas é muito importante. Daí você passa para os músculos exteriores; entra com a alimentação e o conceito de sono; e, mais pra frente, com a meditação. Mas meditação sozinha não adianta, é um conjunto de tomadas de atitude.

PLANETA – Assim como a atividade física sozinha não resolve...

Nuno Cobra – Também não adianta nada, o cara fica forte e burro. Tem de ser um conjunto de atitudes. No meu método o a é o sono, o b é a alimentação, o c é o exercício. Se você faz o exercício e não tem os dois pré-requisitos, está perdendo tempo, envelhecendo e correndo risco.

PLANETA – O exercício ideal seria uma caminhada?

Nuno Cobra – Caminhada... Com o passar do tempo, pode até ser uma corrida. A pessoa, no entanto, não vai correr porque quer, mas porque transformou tanto o seu aparelho cardiovascular que um dia ela tem condições de correr. Quando você tem eficiência cardiovascular suficiente, a corrida flui, sem cansar, com a mesma freqüência cardíaca.
No começo a pessoa deve passear como em um shopping, sem parar para ver as lojas. Começa com dez minutos, com cinco; se for muito obesa, faz um dia sim, um dia não. Porque, além da parte cardiovascular, você tem os ligamentos, os tendões, as articulações, que devem ser também preparados; não se pode, de repente, sair fazendo exercícios. É necessário procurar o centro, o equilíbrio.

PLANETA – Você foi preparador físico de grandes vencedores, como Senna, Mika Hakkinen, Barrichello, Abílio Diniz, etc. Entre os seus clientes, houve algum fracasso retumbante?

Nuno Cobra – O meu trabalho é com o corpo. E por quê? Porque ele não tem falha, nossa máquina é perfeita como o universo. Eu trabalho com bioquímica. Então, não tem como não ter sucesso. Não é o Nuno Cobra que é mágico, feiticeiro, como se falou certa época na televisão, jornais, etc., em relação aos trabalhos que a gente fez com o Senna. Mágica é a vida, o organismo, o corpo. O organismo se organiza, você só precisa dar as comidinhas certas, sono, alimentação, atividade física, meditação, programação mental e trabalhar o cérebro burro. Não tem como dar errado. Por isso apelo para essas pessoas que trabalham com terapia tradicional para que percebam que saber de cabeça é não saber nada. Quando você vivencia com o corpo uma ação concreta de conquista é que o seu comportamento se transforma.

PLANETA – Hoje em dia quem pode ser seu cliente? Porque o que a gente houve falar é que Nuno Cobra é o preparador físico de grandes nomes...

Nuno Cobra – Mas aí é que está, eu estou querendo levar a campo esse trabalho de alguma maneira. Estou com uma equipe bolando coisas em computador, algo para que todos possam ter acesso, inclusive econômico, porque eu quero fazer as pessoas se modificarem.

PLANETA – Você teve uma experiência fantástica com penitenciários também. Seria muito importante colocar o seu conhecimento em prática no Brasil, sobretudo em uma época em que se está tendo rebeliões com freqüência...

Nuno Cobra – Eu poderia ajudar demais, porque não existem pessoas que não têm jeito. O que existe é um governo sem vergonha, sem talento, sem vontade e sem saber o que fazer. O que mais me tocou na vida foi receber cartas de pessoas que eu trabalhei dez anos antes. Eu chorava, porque a pessoa tinha família, havia encontrado o caminho certo, não era mais um anti-social, mas um cidadão produtivo, porque um dia ele recebeu carinho, teve seu lado bom despertado. Eu tenho idéias maravilhosas; aliás, não tenho teorias, mas práticas.

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