5 de set de 2008

Mercado Imobiliário - Gafisa assume controle de 60% da Tenda



A Construtora Tenda e a Gafisa anunciaram ontem acordo pelo qual a primeira irá transferir 60% do seu capital para a segunda e receber desta a subsidiária Fit Residencial Empreendimentos Imobiliários, voltada à baixa renda. Segundo fato relevante divulgado pelas empresas, a Fit deverá ter, na data da incorporação, capital social mínimo de R$ 420 milhões e caixa líquido de R$ 300 milhões.


A operação evidencia consolidação esperado pelo setor que, nos últimos três anos, inundou o mercado de ações e títulos. Nesse período, 25 empresas da construção e outros segmentos imobiliários abriram capital na Bolsa. Considerando que outras cinco companhias aumentaram capital, o valor dessas captações aproximou-se de R$ 20 bilhões - recursos que, em geral, foram levantados para a rápida constituição de banco de terrenos.


Passado esse período, muitas dessas companhias perceberam não ter os recursos suficientes para tocar projetos anunciados e, em meio à elevação dos juros básicos, viram aumentar o custo de captação para formação de caixa. Algumas emitiram debêntures - caso da Cyrela, Gafisa e MRV -, enquanto outras decidiram recorrer à venda de ativos, como Inpar, Tecnisa e Abyara.


No caso da Tenda, o caixa líquido foi reduzido de R$ 376,4 milhões, em dezembro, para R$ 215,1 milhões três meses depois e para R$ 97,5 milhões em junho, quando o grupo anunciou ter banco de terrenos para 207 empreendimentos com 98.943 unidades.


A Gafisa tem disponível para construção 225 terrenos equivalentes a 65.273 unidades, com caixa líquido de R$ 775,1 milhões, em junho. A operação foi bem recebida pelos investidores, pois as ações da Tenda subiram mais de dois dígitos no pregão de ontem, após terem perdido mais da metade de seu valor em agosto. Os papéis da Gafisa registraram alta expressiva. A atitude da Tenda era esperada; analista haviam retirado a recomendação de compra de ações do grupo.


Esse foi o caso do Goldman Sachs que, na semana passada, avaliou que a empresa enfrentaria dificuldades para crescer nos próximos meses por falta de financiamento.Igual opinião foi emitida por e-mail por um profissional do Credit Suisse, que chegou a ser demitido por ter espalhado a avaliação negativa. Apesar disso, o analista responsável pelo setor no Credit Suisse rebaixou a recomendação da ação da Tenda de compra para neutra e ainda afirmou que a Tenda teria de recorrer à emissão de debêntures. Para piorar a visão dos analistas, a Tenda - assim como a Fit - atuam junto ao segmento de baixa renda, que tem sido impactado pela alta dos juros e da inflação, o que pode dificultar os planos de lançamentos.Em cenário de consolidação no setor - em que a Cyrela comprou a Agra e a Abyara vendeu a área de corretagem para a Brasil Brokers -, os analistas esperam que as empresas informem como constituirão caixa. Para o analista de construção civil do Banif Investment Banking, Mario Roberto Mariante, o ritmo de lançamentos e de vendas do setor deverá desacelerar nos próximos meses em função do encarecimento da captação de recursos."A Tenda havia dito que tinha recursos próprios para tocar seus projetos até 2009, mas achávamos que ela teria de buscar recursos no mercado. As linhas de crédito estão caras e o mercado de debêntures fechou", disse. Segundo ele, a maioria das empresas de construção civil não tem a necessidade de funding equacionada. "O caso da Tenda pode ter acelarado o processo de consolidação do setor. É esperado acordo entre Helbor e Company", afirmou. Para Mariante, as empresas terão que fazer as contas do custo dos financiamento e da rentabilidade dos projetos, levando-se em conta que os custos da construção também subiram."Para a Gafisa, a operação com a Tenda é positiva porque ela queria realmente crescer na baixa renda, mas não temos detalhes da operação", concluiu o analista. Comenta-se no mercado que o valor da Fit, que será incorporada pela Tenda, é de R$ 901,5 milhões.

Fonte: Jornal do Commercio - Andrea Cordioli

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