14 de out de 2008

A Arquitetura Moderna de Rodolpho Ortenblad Filho



Graduado na primeira turma de arquitetos do Mackenzie,pertence à geração pioneira de arquitetos modernos



A influência da arquitetura dos Estados Unidos entre os profissionais paulistas é um tema que tem sido pesquisado há alguns anos, nas dissertações e teses acadêmicas. Figura pouco lembrada na historiografia arquitetônica de São Paulo, Rodolpho Ortenblad Filho, graduado na primeira turma de arquitetos do Mackenzie, pertence à geração pioneira de arquitetos modernos que beberam na fonte da produção norte-americana.

Por que resolveu cursar arquitetura?
Na verdade, eu entrei em engenharia. Na minha família, eram todos engenheiros: meu pai, meu tio, meu avô paterno. Eu estudei engenharia, mas fui reprovado em cálculo. Eu já conhecia o ateliê dos estudantes de arquitetura, um salão com pé-direito alto. O ambiente era outro, uma delícia, pois havia toda liberdade para entrar e sair. Quando eu mudei de curso, fui muito criticado pela família. Meu tio, que tinha uma construtora no Rio, disse-me que nunca precisara de um arquiteto. Christiano Stockler das Neves era o diretor da faculdade de arquitetura e titular da cadeira de projeto, mas era de tal forma intransigente, que chegou ao ponto em que não conseguia mais dar aula.

O senhor fazia parte de um trio que realizava projetos modernos, não?
Sim, éramos eu, Arnaldo Paoliello e Roberto Aflalo. (Outros Arquitetos Mackenzistas de Renome) Chamavam-nos de OPA, por causa das nossas iniciais. Também estudei com Billy Blanco, que se chama William Blanco Trindade. Ele não se dedicava aos projetos, deixava para a última hora. Nessa época, ele já compunha e cantava.

E como eram as aulas?
Bem, eu colocava uma pilha de revistas em cima de minha mesa. Eram exemplares da Progressive Architecture, da L’Architecture d’Aujourd’hui, da Architectural Record, entre outras. Christiano chegava na classe, vinha direto à minha mesa e me questionava: “Ortenblad, o que é isso? Isso aqui é arquitetura nórdica, não é para o nosso clima. Vocês estão errados, têm que fazer arquitetura clássica”.

As revistas eram suas ou da biblioteca?
Eram minhas, pois eu assinava todas. Havia um italiano que as vendia no pátio do Mackenzie. Eu me considero bastante autodidata, pois nunca dei muita bola para as aulas. (Este é o perfil mackenzista) E Christiano tinha uma inclinação clássica, até que nós, sem fazer greve, exigimos mudanças no curso. Então fomos parlamentar com ele e lhe dissemos que queríamos fazer arquitetura contemporânea. E ele nos respondeu: “Comigo não vão fazer, não”. Então dissemos: “O senhor precisa nos dar a liberdade de escolher alguém que nos oriente”. Depois de muito tempo, Christiano contratou Fernando Martins Gomes, que ainda está vivo. Fernando dava os temas de forma mais livre. E também conseguimos que ele escolhesse propostas de caráter mais social - como pequenos hospitais e clínicas -, para não ficarmos só projetando palácios. Fizemos, por exemplo, um ginásio estudantil tomando como base Richard Neutra, com alas independentes e ventilação cruzada. Nos Estados Unidos eles usavam muita madeira. Até o dia em que eu descobri Frank Lloyd Wright, que tinha aquele conceito naturista, com uso de materiais brutos.(Influência)

O senhor se lembra de como descobriu Wright?
Eu comprei um livro daquele italiano que vendia no Mackenzie. Aliás, depois ele se tornou dono de uma pequena editora, que publicou um livro sobre Neutra.

Fernando Martins Gomes começou a dar aulas em que ano?
Estávamos no terceiro ano e Christiano parou de dar aulas, deixando a cadeira de projeto com Fernando. Nessa época começávamos a estagiar e existiam poucos escritórios de arquitetura em São Paulo, como os de Rino Levi e Eduardo Kneese de Mello. Mas o melhor para aprender a desenhar era o de Oswaldo Bratke. (Influência Profissional)

O senhor trabalhou com ele?
Sim, em um galpão nos fundos da casa em que Bratke morava, na rua Avanhandava. Isso foi em 1947, 1948.

Fale um pouco sobre sua passagem pelo escritório de Le Corbusier.
Carlos Lemos me apresentou um português que estava de passagem por São Paulo e trabalhava para Le Corbusier. Ele me deu seu endereço em Paris e fui visitá-lo lá, no ateliê, que era um porão com mais ou menos 40 mesas com arquitetos do mundo inteiro. Ele me disse que estavam sobrando duas mesas e eu fiquei trabalhando uns três ou quatro meses. Le Corbusier aparecia muito pouco por lá, os associados é que tomavam conta do ateliê. Na época, Le Corbusier estava com o projeto dos palácios de Chandigarh, em que eu cheguei a fazer alguns detalhes. Ele me chamava de le petit brésilien e era pouco comunicativo; nós conversávamos sobre outras coisas, não falávamos de arquitetura. Isso foi entre 1951 e 1952, durante uma viagem de um ano que eu fiz.

O senhor tinha acabado de se formar?
Sim. Primeiro eu fui para os Estados Unidos, em um navio frigorífico da Delta Line que levava 80 passageiros, extremamente confortável. Cheguei em New Orleans, onde comprei um Bel Air 1951 para o meu pai, e circulei por lá com esse carro. Subi pela costa leste até o Canadá, passei por Chicago, vi algumas coisas de arquitetura. Voltei para Nova York e embarquei, com o carro, em um cargueiro grego que ia para a Europa. Quando cheguei lá, deixei o carro em Marselha e segui de ônibus até Paris.

Quais foram seus primeiros projetos?
Meu primeiro projeto, quando eu ainda estava na faculdade, foi uma casa para meu pai, na praça Guadalupe, no Jardim América. Eu me desdobrei para realizar esse trabalho: fiz o paisagismo, a decoração. A casa foi construída em duas etapas e eu instalei o meu primeiro escritório no porão. Ela ficou bonita, foi até publicada numa revista. E está lá até hoje, ainda que um pouco modificada.

O senhor participou da delegação brasileira que foi ao congresso da União Internacional de Arquitetos em Cuba, não?

Sim, eu era diretor do IAB/SP. Nessa viagem estavam, entre outros, Paulo Mendes da Rocha, Pedro Paulo de Melo Saraiva, Ruy Ohtake. Eram quase cem pessoas. Em 1963, o Brasil estava às vésperas de ser entregue ao regime comunista por João Goulart. E nesse período de efervescência Cuba organizou o congresso internacional de arquitetura. Em nossa delegação havia gente de direita e de esquerda. Uma parte da turma foi de cargueiro. Nós pegamos um avião para Paris, e a partir de lá não sabíamos qual seria o roteiro. Recebemos a informação de que um avião tchecoslovaco ia nos pegar, e ele nos levou a Moscou, onde fomos conduzidos a um alojamento militar; tínhamos ordens para não sair dali, mas conseguimos entrar em contato com guias africanos e demos uma escapada para conhecer a cidade. Chegando em Cuba, ficamos hospedados no Havana Hilton, onde havia fartura - caviar, champanhe russo etc. -, enquanto o povo passava necessidade. Quem era de esquerda achava tudo o máximo, lindo. Nós observávamos que não era bem assim (Outra característica Mackenzista: não nos iludimos com bobagens de esquerda): os cubanos não podiam, por exemplo, fazer reuniões com mais de cinco pessoas. Nesse congresso, conhecemos Fidel Castro, Che Guevara e Camilo Cienfuegos.

E o congresso foi bom?
Foi ótimo. Eu participei de várias sessões, fiz uma conferência bastante concorrida. Depois, por causa da passagem de um furacão, o congresso continuou no México.

Como o senhor começou a trabalhar na revista Acrópole?
Fui convidado porque escrevia bem. No IAB/SP, eu sempre redigia as atas. Comecei a fazer um boletim mensal. Então Max e Manfredo Gruenwald perguntaram no IAB quem redigia o boletim, pois eles estavam interessados em publicar um encarte dentro da Acrópole. E eu passei a ser o redator. Tenho até registro de jornalista. Escrevia comentários sobre arquitetura, resenhas de livros etc.

E sua entrada no IAB/SP?
Fui convidado, creio que por Ícaro de Castro Mello.

Como era seu escritório?
Sempre foi pequeno, eu nunca tive sócio. Quem colaborava comigo eram os meus melhores alunos do Mackenzie. (Característica típica de professores do Mackenzie)

O senhor foi professor no Mackenzie?
No Mackenzie e na Faap [Fundação Armando Álvares Penteado](A Nossa amada Filial). Em 1964, logo depois da revolução, o ensino melhorou substancialmente. Nessa época, lecionavam no Mackenzie Telésforo Cristofani, Galiano Ciampaglia e Miguel Forte. Havia dois professores para cada classe. Meu companheiro era Marcelo Fragelli. Nós tínhamos mais ou menos a mesma linha de trabalho, até participamos juntos de um concurso.

Que concurso?
Do Clube da Orla, no Guarujá. Marcelo insistiu em fazer o projeto com telhado e não deu certo, mas acabamos entregando assim mesmo. Paulo Mendes da Rocha até tirou um sarro de nós: “Vocês gostam de telhado, né?”, ele disse.

Onde era seu escritório em São Paulo?
Primeiro, eu alugava uma sala com Carlos Lemos, em um prédio na esquina da rua 7 de Abril com a Xavier de Toledo. Compartilhávamos a sala, mas sempre trabalhamos de forma independente. Até que em 1951 surgiu o projeto do Ibirapuera. Quando Oscar Niemeyer veio para São Paulo e precisou escolher um assistente, Lemos e eu fomos indicados. Niemeyer fez entrevistas conosco e depois procurou se informar sobre a linha que cada um seguia. Quando descobriu que eu era da linha de Frank Lloyd Wright, optou por Lemos, que ficou assistente dele. E eu fiquei com a sala só para mim.

Quem indicou o senhor para trabalhar com Niemeyer?
Foi o IAB/SP. O ambiente arquitetônico era pequeno.

E depois da 7 de Abril?
Depois, por indicação minha, meu pai comprou quatro conjuntos no edifício Califórnia [na rua Barão de Itapetininga], que é um projeto de Niemeyer. Lá me instalei e permaneci bastante tempo, até surgir o projeto que fiz para Fábio Ribeiro da Silva, em 1965 ou 1966. É um prédio na esquina da alameda Santos com a rua Peixoto Gomide, de frente para o parque Siqueira Campos [Trianon]. Ele queria construir um edifício que fosse uma espécie de centro da construção, vendendo conjuntos para as pessoas que trabalhassem na área. Eu fiquei com algumas unidades e transferi meu escritório para lá.

O senhor ainda trabalha com arquitetura?
Ainda trabalho um pouquinho. Recentemente, fiz os anteprojetos de algumas casas para meus filhos. Mas, de fato, em 1969 assumi minha parte na fazenda de minha família e passei a me dedicar a isso.

Quais são seus melhores projetos?
O prédio do parque Siqueira Campos e a casa da fazenda de minha família, inaugurada em 1956. A estrutura é de ipê e o telhado de brasilit com 10% de caimento.

E o edifício que o senhor realizou na USP?
Na Cidade Universitária nós fizemos o projeto de um edifício enorme de laboratório, linear, com uma galeria no meio. Os dutos eram horizontais, visitáveis. Hoje ali é a faculdade de veterinária. Fiz também o Sesi de Sorocaba; projetei e construí ainda, no começo da carreira, cerca de 50 sobradinhos, mas não tem mais nenhum de pé.

Como aquele na rua Campos Bicudo, no Itaim Bibi, que foi publicado na Acrópole?
Eu fiz aquela casa para mim. Fiquei encantado com uma casa de Sérgio Bernardes, no Rio de Janeiro, que tinha fachada inclinada. Morei muito tempo ali. Depois mudei para o Jardim Paulistano: troquei com o meu pai a casa da Campos Bicudo pela da rua Capitão Antônio Rosa, que saiu publicada no livro de Marlene Acayaba [Residências em São Paulo 1947-1975]. A casa era boa, até que começou a inundar, por causa da viela sanitária ao lado. Agora parece que fizeram uma derivação da galeria e as enchentes diminuíram. Mas eu fiquei muito aborrecido com quem comprou a casa, um paisagista. Ele pintou a litocerâmica da fachada. Um absurdo!



Por Fernando Serapião

Publicada originalmente em PROJETODESIGN

Edição 344 Outubro de 2008


Um comentário:

Gabriel disse...

gostei muito da entrvista conheco pessoalmente o sr rodolfo na verdade o conheçi quando criança meu pai trabalhou na fazenda da faamilia pena que meu pai num teve tempo de ler ele iria gosta muito pois o adimirava de mais pena que ele num tive essa sorte so pra lembra o nome do meu pai é benedito manuel acho que o sr rodolfho de lembrar