11 de nov de 2008

PRODUCAO EM MASSA (FORDISMO) X PRODUCAO ENXUTA (SISTEMA TOYOTA DE PRODUCAO)

foto: linha de produção do Ford T (Inovação do início do séc XX)

1 - INTRODUÇÃO
Muito tem sido publicado em relação ao desenvolvimento de diferentes países no tempo, bem como na tentativa de compreender os elementos que contribuem ou dificultam esse desenvolvimento. Diferentes autores propõem diferentes versões explicativas para esse mesmo fenômeno. Por exemplo, Adam Smith, Keynes e Schumpeter, apresentam, cada um, um caminho diferente para explicar e manipular o desenvolvimento econômico das nações.Dentre todas as tentativas de explicação do desenvolvimento econômico dos países capitalistas, destaca-se aquela que busca a explicação na combinação de diversos fatores, de modo a permitir um crescimento econômico e acumulação de capital de maneira contínua e crescente, apresentada pelos autores da chamada escola regulacionista, ou teoria da regulação.Segundo essa teoria, há dois modos de produção, que permitiu aos países que os adotaram desenvolver-se intensivamente durante o século XX e, ao que parece, assim será, também, durante o século XXI. Esses dois modos são o Fordismo e o Pós-Fordismo (Producao Enxuta – Sistema Toyota de Producao). Este trabalho desenvolverá esses dois conceitos, extrapolando-os da fábrica, onde surgiram, até as economias dos países industrializados, de modo a tornar possível uma justificativa de seu desenvolvimento econômico.
2 - MODO DE PRODUÇÃO E MODO DE REGULAÇÃO
Para que seja possível compreender os conceitos de Fordismo e Pós-Fordismo, faz-se necessário uma definição mais precisa do conceito mais amplo que estes representam, o de modo de produção. Segundo Boyer modo de produção “designa toda forma específica das relações de produção e de trocas, ou seja, das relações sociais que regem a produção e a reprodução das condições materiais necessárias para a vida dos homens em sociedade.”Um modo de produção extrapola o espaço da indústria, estendendo-se por toda a sociedade, uma vez que envolve não só o modo de organização da produção, a participação e remuneração dos empregados, mas ainda a regulação das atividades industriais por governo e sindicatos, o tipo de concorrência existente, a participação do país no cenário internacional e outros fatores que determinariam um contexto muito amplo, no qual é possível que um país produza valor e acumule riquezas ao longo de um período de tempo.Tendo sido configurado, testado e aprovado, um modo de produção passa a ser copiado por outras indústrias e até mesmo por outros países. Dessa forma, as mesmas condições que favoreceram o desenvolvimento de um modelo acabam por torná-lo inviável, quando outros modelos são criados em outros países.Os regulacionistas acreditam que é possível explicar o desenvolvimento e declínio econômico das nações capitalistas, em especial durante o século XX, através dessa lógica. Cada país apresenta o seu modo de regulação, aqui entendido como:
a maneira como a conjunção de formas institucionais cria, direciona e, em alguns casos, dificulta os comportamentos individuais e predetermina os mecanismos de ajustamentos nos mercados que, na maioria das vezes, resultam de um conjunto de regras e de princípios de organização. (Boyer, 1990).
Um modo de regulação, portanto, são as condições exógenas ao modo de produção, que permitem que um determinado modo de produção se desenvolva, trazendo desenvolvimento econômico para seus países.Cada modo de regulação apresentaria determinadas condições que favoreceriam ou dificultariam tanto a produção e acúmulo de riquezas quanto as relações externas de um país, o que favoreceria ou dificultaria, por sua vez, seu crescimento e fortalecimento no cenário mundial. Sob essa ótica, seria possível explicar o crescimento dos Estados Unidos enquanto nação economicamente predominante mundialmente, a partir do início do século XX, seguido por alguns países europeus, como a Alemanha e a França, a partir dos anos 1960.Essa mesma ótica explicaria o fortalecimento do Japão, a partir da década de cinquenta, tendo seu apogeu nas décadas de oitenta e noventa.Toda a dinâmica de desenvolvimento e crise ocorrida no século XX encontraria uma explicação na teoria da regulação, estudando-se fatores que inicialmente favoreceram e posteriormente prejudicaram as nações em estudo. Segundo essa teoria, cada movimento ascendente estaria associado não somente a um modo de regulação, mas também a um modo de produção.Entretanto, os próprios autores regulacionistas reconhecem que entre Fordismo e Pós-Fordismo há muito mais do que um espaço vazio. Por exemplo, Boyer e Freyssenet (2000) discutem outros tipos de regulação possível, variando desde o Taylorismo, Sloanismo, passando pelo Fordismo, Woollardismo, Hondismo e Toyotismo, cada um apresentando características diferentes e Wood Jr. (1995) discute três modelos distintos, Fordismo, Volvismo e Toyotismo. A seguir, serão discutidos os dois principais modelos, Fordismo e Pós-Fordismo.
3 - FORDISMO
Conforme comentado anteriormente, o Fordismo é uma alusão ao nome do profissional que mais influenciou na criação desse modo de produção, o norte-americano Henry Ford, fundador da empresa que leva seu nome. Determinado e ambicioso, buscou incessantemente a contínua redução dos tempos de fabricação dos veículos produzidos pela Ford, de modo a atingir economia de escala — ou seja, reduzir o custo unitário de fabricação de um veículo através da diluição dos custos fixos em uma grande quantidade de produtos fabricados.Ford é considerado o criador do chamado sistema de produção em massa, centrado no conceito de linha de montagem, no qual os produtos são transportados dentro da fábrica, através das estações de trabalho, reduzindo o tempo de movimentação dos operários na busca de ferramentas e peças, aumentando a velocidade e ritmo de produção, de maneira padronizada e econômica.O sistema de produção em massa foi, certamente, um grande avanço na tecnologia de produção, especialmente se comparado ao sistema artesanal existente anteriormente. Entretanto, a criação desse sistema não foi a única contribuição de Ford para a indústria automobilística. Para desenvolver seu sistema de produção, Ford foi forçado a desenvolver um complexo sistema de relações que extrapolaram o âmbito das fábricas e indústrias por todo o mundo, atingindo profundamente todo o estilo de vida das pessoas e dos países pelo mundo afora, influenciando não só o modo como as pessoas trabalham e obtém renda, mas também aquilo que consomem, admiram e o modo como vivem.De maneira geral, o Fordismo envolve não só a criação do sistema de produção em massa, mas também a intercambialidade das peças e dos funcionários, a padronização de produtos, ferramentas e métodos de trabalho, a criação de relações trabalhistas mais estáveis, associados à integração vertical e à centralização do poder.
3.1 - CRIAÇÃO DA LINHA DE MONTAGEM
Antes da contribuição de Ford, o sistema de produção de automóveis era basicamente artesanal, composto por operários altamente qualificados, trabalhando de maneira descentralizada e utilizando máquinas de uso geral para realizar uma série de atividades complexas, em todo o processo de produção de um carro (WOMACK, JONES e ROOS, 1992). Esse processo era demorado e imprevisível, apresentando baixa confiabilidade e custos elevados, o que tornava o automóvel um artigo de alto luxo, acessível a poucos.Para reduzir a ineficiência do sistema, era necessário que o sistema imprimisse a velocidade desejada, e não deixar isso a cargo de cada operário. Após introduzir um sistema no qual as peças eram levadas a cada operário, Ford aperfeiçoou um sistema onde o carro era movimentado em direção ao trabalhador estacionário. Tratava-se de uma correia na qual os veículos eram transportados por toda a fábrica a uma velocidade contínua, exigindo dos operários grande esforço de acompanhamento.Os benefícios dessas mudanças já foram muito grandes. Segundo WOMACK, após a introdução gradativa das mudanças no sistema de produção de veículos, o fluxo de tarefas necessárias para a montagem de um veículo Ford reduziu de 750 minutos, em 1913, para 93, em 1914, uma redução de 88% do esforço. SHIMOKAWA (1993) também comenta a redução do tempo necessário para a fabricação de um veículo, depois de Ford ter conseguido completar o desenvolvimento de seu sistema. Segundo esse autor, as fábricas que adotavam a produção fixa, em contrapartida ao sistema de linha de montagem, levavam no mínimo doze horas e vinte e oito minutos para montar uma unidade, enquanto na fábricade Ford o tempo havia encolhido para uma hora e trinta e três minutos.
3.2 - INTERCAMBIALIDADE DAS PEÇAS E PADRONIZAÇÃO DO PRODUTO
Outra grande contribuição de Ford, na criação do sistema de produção em massa, foi a padronização do produto e a intercambialidade das peças. No sistema de produção artesanal, cada veículo fabricado era um protótipo, dada a diversidade de projetos e as dificuldades de ajustes necessários. As peças eram adquiridas de fornecedores distintos, utilizando sistemas de medição e fabricação também distintos.Cada projeto de veículo possuía suas próprias peças, muitas utilizadas exclusivamente em um único veículo. Ford foi o primeiro fabricante que percebeu que se utilizasse peças padronizadas e similares para os modelos de veículos, poderia economizar grande parte do esforço de ajuste. Ele buscou fervorosamente esse objetivo, praticamente durante toda sua vida, de modo a simplificar a fabricação de um veículo, até que os custos de fabricação estivessem tão baixos quanto possível.A chave para a produção em massa não residia — conforme muitas pessoas acreditavam ou acreditam — na linha de montagem em movimento contínuo. Pelo contrário, consistia na completa e consistente intercambialidade das peças e na facilidade de ajustá-las entre si.Era necessário padronizar o produto e as ferramentas, projetando-os de modo a facilitar o trabalho de montagem e reduzir erros de fabricação e ajustes. Dessa forma, Ford reduziu sua linha produtos ao mínimo possível, tendo produzido o modelo T em nove versões do mesmo chassi básico, e procurado fabricar suas próprias ferramentas, específicas para a fabricação de suas peças padronizadas. A simplificação do projeto do modelo T tornava-o, ainda, muito simples de ser dirigido e consertado, desde que o proprietário possuísse noções básicas de mecânica.A estandardização toma o lugar da customização, não somente na produção como também na linha de produtos à disposição dos consumidores. A pouca variedade de produtos era irrelevante, face aos baixíssimos preços que permitia e à enorme demanda reprimida em relação aos veículos automotores. O modelo T chegou a ter seu preço reduzido em 2/3 do original, como efeito da redução de custos decorrente da economia de escala.
3.3 - CONTRIBUIÇÕES DE FORD À INDÚSTRIA: RELAÇÕES TRABALHISTAS
Outra importante contribuição de Ford em relação aos sistemas de produção foram as relações trabalhistas que desenvolveu com seus funcionários. Por um lado, Ford inventou, talvez iluminado pelas idéias de Taylor e Smith, o funcionário intercambiável, facilmente substituível. O sistema de produção, que reduzia as tarefas realizadas por cada operário ao mínimo possível — se possível, somente uma única tarefa simples e repetitiva — simplificava também a tarefa de seleção e treinamento dos candidatos a vagas na fábrica, facilitando o crescimento do quadro de pessoal da empresa sem muito rigor.Estrangeiros, indígenas, agricultores, podiam ser facilmente transformados em operários com poucos minutos de treinamento. Dizem que em algumas fábricas da Ford era possível encontrar pessoas falando 50 línguas e sotaques diferentes. As condições de trabalho não tinham necessariamente que ser as mais apropriadas, e cabia a cada operário resolver se estava disposto a aceitar o cargo na empresa, pois se um não quisesse, sempre haveria outros que queriam, devido ao excesso de oferta de mão de obra existente à época.Todavia, pressionado por problemas como interrupções na produção, deterioração da qualidade, absenteísmo, doenças, rotatividade da mão de obra e pelo aumento da atividade sindical — todas manifestações de elevadas tensões sociais — Ford foi sendo forçado a oferecer melhores condições de trabalho e melhor remuneração aos seus operários, tornando-os consumidores dos veículos Ford. Para reduzir esses problemas, estabeleceu diversas formas de incentivos à produtividade, como escalas salariais crescentes, até chegar ao modelo, criado em 1914, do dia de trabalho de oito horas e de cinco dólares.Para preparar melhor seus trabalhadores, Ford fundou igrejas e estabeleceu programas de educação e bem-estar, oferecendo educação moral e ensino de inglês, bem como para introduzir aos seus trabalhadores estrangeiros e outros, os valores do estilo de vida americano. Essas providências contribuíram significativamente na estabilidade e na qualidade da mão-de-obra utilizada pela empresa, produzindo impactos na redução de custos e na melhoria da qualidade dos produtos com a redução dos níveis de absenteísmo (baixou de 10% para 0,5%) e rotatividade (baixou de 400% para menos de 15%).Entretanto, isso não foi o bastante. Ao sentir fracassar sua tentativa de dissuadir os trabalhadores a trabalhar mais intensamente, Ford fez outras tentativas através da repressão — chegando a ter criado uma força policial própria, o Departamento de Serviço.Percebe-se, portanto, que Ford tenta estabilizar as relações trabalhistas das duas maneiras possíveis. Por um lado, através de incentivos, oferecendo benefícios e remuneração ampliada para aqueles trabalhadores mais bem sucedidos e mais adequados ao seu sistema de produção, enquanto tentava treiná-los e educá-los para se adaptem ao sistema. Por outro lado, reprimindo, pressionando e minando o poder dos sindicatos, num propósito firme de manter os trabalhadores sob controle.
3.4- HENRY FORD COMO LÍDER: CENTRALIZAÇÃO E INTEGRAÇÃO VERTICAL
A necessidade de utilização de peças intercambiáveis, com padronização do sistema de medição e fabricação, levou a Ford Motors Company a desenvolver suas próprias fábricas de peças e componentes, de modo a tornar confiável o suprimento de peças aceitáveis, em acordo com o rígido cronograma fordista de produção.Associando essas necessidades à sua obsessão por controle, Ford procura integrar verticalmente suas atividades ao máximo, chegando a possuir suas próprias plantações de seringueiras no Brasil, para poder fabricar seus próprios pneus e outros componentes emborrachados. Em 1931, o complexo industrial de Rouge, em Detroit, atinge 100% de integração vertical.O motivo mais forte, entretanto, para a centralização e integração vertical, na realidade, foi a desconfiança de Ford em relação aos fabricantes do mercado, especialmente se forem levadas em consideração as necessidades rígidas da Ford em relação aos seus componentes. “Ter de comprar de fornecedores e depender do mercado — pensava ele — traria inúmeras dificuldades. ”
3.5 - DIFUSÃO DO FORDISMO
O Fordismo proporcionou grandes vantagens competitivas aos países e organizações que o adotaram. Através desse sistema de produção, foi possível expandir rapidamente a produção, reduzindo os custos unitários de fabricação, de modo a atender a grande demanda reprimida existente nos países em desenvolvimento. Diversas nações, lideradas pelos Estados Unidos, consolidaram sua posição enquanto líderes econômicas no planeta, graças aos aumentos de produtividade obtidos com o método fordista de produção — Inglaterra, Alemanha e França em especial —, tendo seu produto interno bruto aumentado significativamente durante os anos de apogeu do Fordismo.Grandes investimentos foram realizados durante todo o desenvolvimento do Fordismo, de modo a ampliar a capacidade produtiva e conquistar novos mercados emergentes, gerando uma distribuição de renda e acelerando o desenvolvimento de outros setores, como transportes,construção civil, e indústrias de bens de capital.Como decorrência da redução de preços e da geração de empregos, nasce uma classe de trabalhadores com poder aquisitivo e ansiosos por adquirir diversos produtos, mesmo que tenham que abrir mão da qualidade — face ao grande índice de defeitos apresentado pelos bens produzidos pelo sistema fordista — e a customização dos produtos — os bens produzidos pelo Fordismo são altamente padronizados.Por outro lado, o trabalho adquire um caráter monótono, rotineiro, onde o trabalhador passa a ser visto, de alguma forma, como um apêndice das máquinas, destinado a apertar seus botões e ativar seus circuitos, para produzir esses bens padronizados.Culturalmente, o Fordismo está associado ao consumo em massa, padronização e barateamento não só dos produtos, mas também das artes e das culturas de um modo geral. O mundo passa por uma americanização, onde os principais bens de consumo são reflexos daqueles produzidos nos Estados Unidos, ou por suas empresas, trazendo consigo uma boa dose de sua cultura. Até mesmo a língua inglesa, cuja importância histórica já decorria dos movimentos colonizadores da Inglaterra, consolida sua posição como a mais importante língua do planeta. O american way of life torna-se o modo de vida de milhões de terráqueos, traduzido nos sonhos de consumo e crescimento profissional, social e financeiro.
3.6 - CRISE DO FORDISMO
Durante a primeira metade do século XX, o Fordismo, em suas diversas variações, representou o principal motor de desenvolvimento econômico dos países que a ele aderiram, mesmo durante a recessão no entre guerras. O ano de 1955 representa o pico da produção fordista, tendo sido atingida a marca de sete milhões de veículos vendidos. Por outro lado, depois do pico sempre existe uma queda, e essa aconteceu nos anos que se sucederam.O Fordismo passa a apresentar sinais de esgotamento quando, após anos de crescimento, as indústrias percebem que não é mais possível crescer apenas expandindo seus mercados e sua capacidade produtiva de maneira padronizada, uma vez que os principais mercados do mundo haviam sido plenamente ocupados e a demanda apresentava tendências decrescentes.Os padrões de relações trabalhistas não satisfaziam mais plenamente a sociedade, e surge uma necessidade de renovação das condições subjacentes ao Fordismo. A forma de remuneração já não agrada mais os sindicatos, assim como o tipo de trabalho predominante e as relações entre a gerência e os empregados.O comportamento de consumo, por outro lado, deixa de preferir produtos padronizados, de acordo com o sistema fordista, e passa a exigir maior diferenciação e customização, o que inviabiliza a economia de escala, criando o imperativo de economia de escopo — a viabilização de produção em pequenos lotes de maneira lucrativa.
[… ] a crise do fordismo foi gerada pela sua inflexibilidade em aderir a novos parâmetros que não exclusivamente técnicos, isto é, relacionados exclusivamente à organização da produção, mas também por parâmetros socioeconômicos com conseqüências diretas na relação capital-trabalho. Isso ocorre na medida em que a crise passa agora a ser protagonizada pela sociedade como um todo, o que vai exigir dos sistemas-empresa uma nova base institucional, conseqüente com as novas realidades econômicas, políticas e sociais em que o determinante é o mercado e não mais mediações do estado [… ] (TENÓRIO)
O Fordismo, assim como o keynesianismo e o welfare state, bem como o modernismo, chegam ao seu limite, surgindo a necessidade de se estabelecer um novo papel para o estado, bem como novas condições industriais, substituindo a produção em massa pela produção customizada, substituindo a ação gerencial burocrática por uma mais flexível, aumentando a satisfação em relação ao trabalho.Era necessário o surgimento de um novo modo de produção e de regulação, que estimulasse a competição, reduzindo a intransigência dos sindicatos e aumentado a agilidade empresarial. Ao que parece, essas condições serão encontradas num novo modelo, advindo do Japão, denominado, de maneira geral, de Pós-Fordismo.
4 - PÓS-FORDISMO ( Systema Toyota de Producao )
Se o Fordismo teve seu nascimento nas fábricas da Ford Motor Company, nos Estados Unidos da América, o Pós-Fordismo surgiu nas fábricas da Toyota Motor Corporation, no Japão. Ao perceber a inviabilidade de utilização do modelo norte americano no mercado interno do Japão, Eiji Toyoda, seu fundador, se viu forçado a repensar o modelo fordista, adequando-o à demanda reduzida e fragmentada desse mercado. Aos poucos, ele foi construindo primeiramente o modo de produção denominado de produção enxuta ou produção flexível (lean production), e em seguida o modo de regulação que favoreceriam o crescimento da economia japonesa em poucas décadas, o Pós-Fordismo.Segundo Tenório (2000) Pós-Fordismo é a “diferenciação integrada da organização da produção e do trabalho sob a trajetória de inovações tecnológicas em direção à democratização das relações sociais nos sistemas-empresa”. O Pós-Fordismo, segundo este autor, é o resultado da evolução das condições institucionais, alimentadas pelo desenvolvimento tecnológico — em especial a tecnologia eletroeletrônica, que não só possibilita, mas também demanda mudanças significativas nos sistemas de produção utilizados pelas principais empresas do mundo.Este mesmo autor complementa que o movimento inclui a utilização de estruturas organizacionais mais horizontalizadas e menos compartimentalizadas e a utilização de políticas inovadoras de recursos humanos, justificados pela globalização da economia, pelo desenvolvimento científico e tecnológico e pela valorização da cidadania.Alban (1999), ao descrever esse movimento como toyotismo, caracteriza-o como composto por uma mecanização flexível, associada à multifuncionalização da mão de obra, ao sistema de qualidade total e à produção just in time.
Womack, Jones e Roos (1992), ao definir o modelo japonês de produção flexível, também denominado por esses autores como produção enxuta (lean production) apresentam duas características que consideram fundamentais: os fatos dessas organizações transferirem o máximo de tarefas e responsabilidades para os trabalhadores de níveis mais baixos, aqueles que realmente agregam valor aos produtos, e possuírem um sistema de detecção de defeitos que rapidamente relaciona cada problema a sua causa, e que essa, uma vez eliminada, elimina os defeitos dos produtos antes que os mesmo aconteçam. Para que seja viável, segundo esses autores, o Pós-Fordismo deve utilizar trabalhadores qualificados, multifuncionais e pró-ativos em direção à inovações e melhorias de qualidade.Para Kumar (1997) o âmago do Pós-Fordismo é a especialização flexível, ou seja, a utilização de máquinas-ferramenta numericamente controladas que permitem a produção econômica de pequenos lotes de produtos, a rápida criação de novos e diversificados produtos, atendendo aos gostos diferenciados dos clientes. Para que seja plenamente viável, a especialização flexível inclui também a flexibilidade e perícia da mão de obra, diferentemente daquela utilizada na produção em massa, predominante no Fordismo.
4.1 - DIFUSÃO E ADOÇÃO DO PÓS-FORDISMO
Assim como no Fordismo, os demais países desenvolvidos não aderiram imediatamente ao novo sistema, surgido no Japão. Assim como no Fordismo, foi necessário em certo tempo de maturação desse novo sistema, até que os outros países pudessem aceitá-lo e adotá-lo, pressionados pelo sucesso comercial de seu país de origem, bem como pelo fracasso do Fordismo em sustentar o crescimento econômico das organizações e dos países.Nos Estados Unidos, a mola propulsora para a adoção do Pós-Fordismo foi o crescimento incessante das exportações de veículos japoneses, que foi aumentando gradativamente, atingindo seu auge nos anos oitenta, culminando com a instalação de montadoras japonesas nesse país. A primeira montadora norte-americana a adotar a produção enxuta, curiosamente, foi a Ford. Atualmente, essa organização lidera o ranking das mais evoluídas em relação à produção enxuta, talvez até mesmo competindo com as montadoras japonesas.Em um estudo comparando a utilização de automação entre diversos países, Macduffie e Pil (1996) alertam para o fat de que as montadoras japonesas têm utilizado a automação mais intensamente que as da Europa e dos países recentemente desenvolvidos, seguidas de perto pelas montadoras norte-americanas.Nos demais países, a adoção tem sido realizada também por imitação do sucesso das montadoras japonesas bem como por pressões institucionais que têm sido exercidas sobre essas montadoras, em relação à regulação das relações trabalhistas, bem como outras pressões para a redução dos preços. Isso tem ocorrido gradativamente na Europa, Brasil e México, bem como em alguns países asiáticos, liderados pelos japoneses.
4.2 - AS CONSEQÜÊNCIAS DO PÓS-FORDISMO (Sistema Toyota de Producao)
Assim como o Fordismo, o Pós-Fordismo é um movimento que não se limita à indústria automobilística, espalhando-se rapidamente para outras indústrias, conforme vai ocorrendo a difusão da globalização, do capitalismo e do desenvolvimento científico e tecnológico. Seus efeitos são encontrados não somente em outras indústrias, mas refletem-se em toda a estrutura das sociedades capitalistas do mundo, de diversas maneiras. Associado ao pós-modernismo e ao neoliberalismo, o Pós-Fordismo avança as fronteiras e influencia todo o comportamento humano ao redor do planeta.Através do Pós-Fordismo, é possível vencer os imperativos da economia de escala, reduzindo custos sem a necessidade de se ampliar a quantidade, atendendo à demanda mais irregular que se encontra nas três últimas décadas do século XX.Entretanto, o Pós-Fordismo traz consigo uma grande ameaça aos regimes capitalistas: a redução do nível de emprego e da renda dos trabalhadores, uma vez que a mecanização flexível permite maior nível de automação em algumas tarefas, o que permite reduções nos quadros de funcionários das organizações. O trabalhador volta a fazer trabalho mais complexo e desafiador. O padrão de emprego remanescente é muito mais exigente do que aquele permitido pelo Fordismo, restringindo a oferta de emprego para o segmento mais qualificado da economia, transferindo grande parte do mercado de mão de obra para segmentos menos estáveis, como trabalho autônomo, terceirização e outros tipos de trabalhos temporários.Essa ameaça pode ser acalmada considerando-se que em muitos setores o Pós-Fordismo não causa o desemprego estrutural, como muitos advogam, mas uma transferência de vagas para outros setores da economia, como serviços, cuja natureza tem sido historicamente intensiva em mão-de-obra e outras áreas das organizações que exigem maior qualificação e remuneram adequadamente.Embora em número expressivamente menor, os trabalhadores não desaparecem num sistema de automação flexível. Em algumas áreas, o controle humano continua sendo o mais adequado, ou simplesmente o mais viável, e em outras, onde o controle numérico domina, a assistência de programação e manutenção das máquinas encontra-se ainda muito pouco automatizada. Em ambos os casos, contudo, o trabalho requerido já não consiste no trabalhador semiqualificado do taylorismo-fordismo. O fato é que numa fábrica flexível não existe apenas uma linha de produção e montagem, mas sim ‘infinitas’ linhas. Isso faz com que os trabalhadores, assim como as máquinas, tenham que ser flexíveis. Ou seja, um mesmo trabalhador deve ter a capacidade de exercer diversas funções, operar e ou monitorar várias máquinas, para que toda a equipe possa ser reconfigurada sempre que necessário.Não bastasse a ameaça de desemprego estrutural, pode-se perceber outra ameaça, talvez tão assustadora quanto ela, em relação à mudança da natureza do trabalho remanescente.Se o trabalho no regime fordista era maçante, monótono e repetitivo, limitando o ser humano a ser apenas um apêndice de uma máquina, o trabalho no regime pós-fordista assume uma natureza aparentemente mais interessante, pois transfere, conforme foi apresentado, boa parte do processo decisório das organizações para os níveis operacionais, enriquecendo a natureza do trabalho, rompendo a rotina e, numa primeira análise, tornando-se mais interessante e enriquecedor.Por outro lado, as organizações, após sucessivas etapas de downsizings e reengenharias — resultantes em grande parte da adoção de sistemas flexíveis de gestão e produção, passam a transferir a sobrecarga de trabalho dos postos eliminados para os trabalhadores remanescentes. Isso termina por piorar as condições de trabalho, não por monotonia, mas por intensas pressões no ritmo e na natureza do trabalho, associados ao desafio constante de redução de custos e aumento da qualidade do produto.De maneira semelhante, além de eliminar importantes postos de trabalho, causando o desemprego estrutural, o Pós-Fordismo causa o aviltamento do trabalho, a mudança da natureza do trabalho de gerência, e exige uma qualificação intelectiva, representada pela capacidade de pensar abstratamente, pelo raciocínio indutivo e pela exigência de uma concepção teórica dos processos aos quais os dados se referem, não somente dos trabalhadores das fábricas, mas também daqueles dos escritórios.Isso exige, por parte do trabalhador, maior investimento em qualificação, diante da necessidade de enfrentar desafios mais complexos, de modo a garantir sua empregabilidade — termo que passa a existir e fazer sentido dentro do ambiente de trabalho das empresas pós-fordistas.Os trabalhadores afirmam que estão estressados, as ruas e rodovias estão congestionadas com caminhões fazendo entregas just-in-time, as empresas são menos rentáveis em uma busca sem fim por participação de mercado, maior diversidade de produtos e menores ciclos de vida de produtos, o capital está mais caro, enquanto os preços das ações japonesas caem e as companhias são forçadas a emprestar dinheiro para repagar bônus conversíveis que no passadoteriam sido convertidos em ações.Segundo Macduffie e Pil (1996) a utilização de tecnologia de produção flexível não só permite, mas exige a utilização de trabalhadores multi-qualificados, de modo a acomodar uma maior complexidade de produto sem penalizar a produtividade ou a qualidade, dominando uma maior variedade de tarefas, certificando-se de que as peças corretas sejam utilizadas na fabricação dos veículos, trabalhando com seus membros de equipe de modo a encontrar o layout mais eficiente de peças e ferramentas e identificar problemas específicos de qualidade de cada produto.Esses autores verificam uma relação entre o uso de automação flexível e mão de obra flexível, ao mesmo tempo em que apontam haver, em contrapartida, uma relação entre a utilização de automação rígida e abordagens tradicionais de mão de obra (Fordista/Taylorista).
4.3 – PRINCIPIOS DA PRODUCAO ENXUTA (Pos – Fordismo)
A Produção Enxuta parte do princípio que existem sete tipos de desperdícios dentro da empresa os quais devem ser atacados e eliminados. Estes desperdícios segundo Gianesi & Corrêa, são:Desperdício de superprodução : provém, em geral, de problemas e restrições do processo produtivo, tais como altos tempos de preparação de equipamentos, induzindo à produção de grandes lotes; incerteza da ocorrência de problemas de qualidade e confiabilidade de equipamentos, levando a produzir mais do que o necessário; falta de coordenação entre as necessidades (demanda) e a produção, em termos de quantidades e momentos; grandes distâncias a percorrer com o material, em função de um arranjo físico inadequado,levando à formação de lotes para movimentação, entre outros. Desse modo, a filosofia Enxuta sugere que se produza somente o que é necessário no momento e, para isso, que se reduzam os tempos de set up, que se sincronize a produção com a demanda, que se compacte o layout da fábrica, e assim por diante.
Desperdício de material esperando no processo : resulta na formação de filas que visam garantir altas taxas de utilização dos equipamentos. A sincronização do fluxo de trabalho e o balanceamento das linhas de produção contribuem para a eliminação deste tipo de desperdício.
Desperdício de transporte : encaradas como desperdícios de tempo e recursos, as atividades de transporte e movimentação devem ser eliminadas ou reduzidas ao máximo,através da elaboração de um arranjo físico adequado, que minimize as distâncias a serem percorridas. Além disso, custos de transporte podem ser reduzidos se o material for entregue no local de uso.
Desperdício de processamento : é comum que os gerentes se preocupem em como fazer algo mais rápido, sem antes questionar se aquilo deve realmente ser feito. Nesse sentido, torna-se importante a aplicação das metodologias de engenharia e análise de valor, que consistem na simplificação ou redução do número de componentes ou operações necessários para produzir determinado produto. Qualquer elemento que adicione custo e não valor ao produto é candidato a investigação e eliminação.
Desperdício de movimentação nas operações : aqui, justifica-se a importância das técnicas de estudo de tempos e métodos, pois a Produção Enxuta é um enfoque essencialmente de “baixa tecnologia”, apoiando-se em soluções simples e de baixo custo, ao invés de grandes investimentos em automação. Ainda que se decida pela automação, devem-se aprimorar os movimentos para, somente então, mecanizar e automatizar. Caso contrário, corre-se o risco de automatizar o desperdício.
Desperdício de produzir produtos defeituosos : produzir produtos defeituosos significa desperdiçar materiais, disponibilidade de mão de obra, disponibilidade de equipamentos, movimentação de materiais defeituosos, armazenagem de materiais defeituosos, inspeção de produtos, entre outros.
Desperdícios de estoque : significam desperdícios de investimento e espaço. A redução dos desperdícios de estoque deve ser feita através da eliminação das causas geradoras da necessidade de manter estoques. Eliminando-se todos os outros desperdícios, reduz-se, por conseqüência, os desperdícios de estoque. Isto pode ser feito reduzindo-se os tempos de preparação de máquinas e os lead times de produção, sincronizando-se os fluxos de trabalho, reduzindo-se as flutuações de demanda, tornando as máquinas confiáveis e garantindo a qualidade dos processos.
As metas colocadas pela produção Enxuta em relação aos vários problemas de produção são:- zero defeitos;- tempo zero de preparação (set up);- estoque zero;- movimentação zero;- quebra zero;- lead time zero;- lote unitário (uma peça).
Para eliminação destes desperdícios e alcance das metas estabelecidas a Produção Enxuta lança mão de um conjunto de técnicas e ferramentas. Algumas dessas são:
Value Stream Mapping - O Mapa do Fluxo de Valor Mapeamento das atividades do Processo e Matriz de Resposta da Cadeia de SuprimentosLayout Enxuto - Técnicas de Formação de células sistema kanban de controle da produção ;
5 - ANÁLISE CRÍTICA E CONCLUSÕES
Muitos advogam que o Pós-Fordismo representa o fim do Fordismo e da economia de escala como regime de acumulação predominante. A Teoria da Regulação, ao discutir o Pós-Fordismo, parece apresentá-lo como o grande paradigma vigente a partir dos anos oitenta, talvez, superando o Fordismo, e preenchendo os espaços vazios que este apresenta.Parece estar havendo uma busca por aquilo que Roos (1992) denomina de o próximo paradigma, que poderá vir a substituir o Fordismo e o Pós-Fordismo, de maneira satisfatória e eficiente, enquanto modo de produção ou até talvez de modo de regulação dominante, uma vez que ambos têm demonstrado serem insuficientes para garantir o crescimento contínuo de economias a longo prazo.Por outro lado, pode-se considerar que o construto da teoria da regulação possui uma excelente capacidade explicativa, apresentando fatos de modo a explicar racionalmente a dinâmica econômica dos países capitalistas durante o século XX. Pode-se afirmar que essa teoria preenche alguns dos espaços vazios deixados pelas teorias que a antecederam — em especial o keynesianismo e o schumpeterianismo. Entretanto, essa teoria também explica os fatos a posteriori, sob a luz de uma organização lógica de elementos que justifiquem o crescimento e declínio das economias nacionais, não permitindo nenhuma previsibilidade sobre o desempenho das economias. Ela não explica ou orienta como uma nação pode se aparelhar para obter melhores resultados ao longo do tempo, uma vez que os modos de regulação e de produção acontecem quase que por acaso.Outro ponto fraco dessa teoria, é que ela se esforça em separar o Fordismo do Pós-Fordismo, como se fossem radicalmente diferentes um do outro. Entretanto, ambos parecem ser, na verdade, dois momentos diferentes de um mesmo processo.Pós-Fordismo não significa, necessariamente, algo contrário ao Fordismo. Os dois não são extremos de nenhum continuum, pois não se opõem diretamente em aspecto algum. São apenas complementares.O Pós-Fordismo é simplesmente uma evolução do Fordismo, uma tentativa de melhorar o sistema de produção com o propósito de corrigir suas falhas. Não é necessariamente melhor, apesar de trazer consigo uma promessa de que as relações trabalhistas serão mais democráticas ou as condições de trabalho serão melhores, ou de que os consumidores poderão, enfim, obter diversidade sem ter que pagar mais caro por isso.O Pós-Fordismo representa um sistema de produção que sob certas condições econômicas pode ser mais eficaz do que o Fordismo — não necessariamente sempre. Até porque o Pós-Fordismo parece apresentar os primeiros sinais de desgastes, especialmente com o desaquecimento da economia japonesa, seu país de origem.

6 - BIBLIOGRAFIA
BOYER, Robert; FREYSSNET, Michel. O mundo que mudou a máquina: síntese dos trabalhos do GERPISA 1993-1999 .
CLARKE, Simon. Crise do fordismo ou crise da social-democracia?
KUMAR, Krisham. Da sociedade pós-industrial à pós-moderna: novas teorias sobre o mundo contemporâneo .
WOMACK, James P. ; JONES, Daniel T. ; ROOS, Daniel. A máquina que mudou o mundo .
WOOD JR. , Thomas. Fordismo, toyotismo e volvismo: os caminhos da indústria em busca do tempo perdido.
Sites consultados na Internet :
http://www.insec.com.br/
http://geocities.yahoo.com.br/vinicrashbr/historia/geral/fordismo.htm
http://www.ensp.unl.pt/luis.graca/textos44.html
http://www.ub.es/geocrit/sn/sn119-90.htm

Um comentário:

Fabricio Araujo disse...

Excelente obra, contribuiu muito para meu aprendizado. Parabéns.