3 de fev de 2009

Origem da utilização de Alvenaria Armada no Brasil

O PAI DA MATÉRIA

Arquiteto formado pela FAU-USP em 1967, Carlos Alberto Tauil é um dos mais entusiasmados pioneiros da alvenaria estrutural de blocos de concreto no Brasil. No percurso de quase quarenta anos de vida profissional, ele vem acompanhando ativamente o desenvolvimento desse sistema construtivo racionalizado, que ajudou a difundir e normatizar

Como foi o início de sua vida profissional, nos anos 1960?

Comecei projetando habitações populares para a Ribeiro Franco, uma construtora que trabalhava para a COHAB-SP, sob concorrência. Na época, o segmento de habitação popular era o grande mercado da construção e inúmeras tecnologias novas estavam sendo testadas. Meu interesse por essas novidades era muito grande, principalmente pelas que procuravam a racionalização dos sistemas. Em 1971, concorri e ganhei uma bolsa de estudos de cinco meses na fundação Bowucentrum, na Holanda. Lá, fiquei conhecendo a metodologia de projeto desenvolvida pelo professor N.J. Habraken, da Universidade de Eindhoven, que utilizava a coordenação modular tanto com relação ao componente, quanto com relação ao edifício e à urbanização. Para a habitação popular, Habraken sugeria dois domínios, o externo, da estrutura acabada, de interface com a comunidade, e o de domínio interno, em que o próprio morador podia escolher divisórias, cores e acabamentos para seu apartamento. Como eu tinha experiência profissional com habitação popular, achei a idéia muito interessante, porque era uma forma de trabalhar com a construção em massa sem ser repetitivo. O contato com as novas idéias sobre habitação popular e com a metodologia de projeto de Habrakem, que poderiam ser aplicadas em qualquer sistema construtivo, foi fundamental para minha formação.

Seu interesse pela alvenaria estrutural data desta época?

Bem, no final do curso, fiz a tese sobre a metodologia de projeto do Habraken aplicada à construção no Brasil, utilizando a alvenaria de tijolo, que na época era a mais comum. O trabalho foi enviado pelo pessoal do Bowucentrum para diversas instituições nacionais e internacionais. De volta ao Brasil, tentei desenvolver esses estudos em São Paulo, no IPT - Instituto de Pesquisas Tecnológicas, mas na época não havia verba. Comecei então a escrever artigos sobre o assunto para a revista A Construção, da editora PINI. Foi quando a construtora Zarvos se interessou pelo assunto e me chamou, pois queria construir sobrados e pequenos prédios com blocos de concreto, utilizando a modulação. Achei ótimo, porque os blocos se encaixavam como uma luva ao sistema de modulação..

A partir de quando o bloco de concreto começou a ser difundido mais largamente no Brasil?

O início foi com a construção das usinas de Jupiá e Ilha Solteira, em São Paulo, pela Camargo Corrêa, na década de 1960. Eu ainda era estudante, mas participei desses projetos, que foram coordenados pelos professores Ernest Mange e Ariaki Kato. A Camargo Corrêa importou as máquinas especiais da marca Besser, norte-americanas, para a fabricação dos blocos de concreto utilizados na construção da cidade, que hoje é um centro de excelência na pesquisa de alvenaria estrutural. No final dos trabalhos, a construtora transferiu as máquinas para a pedreira que tinha em São Paulo, e com os resíduos, começou a fabricação dos blocos aqui. Essa é a origem da Reago.

E na Zarvos, como era seu trabalho?

Começamos em 1972, desenvolvendo projetos padronizados de prédios para habitação de baixo custo, de alvenaria estrutural e já com o conceito da modulação. Apesar da redução dos custos proporcionada pelo sistema, o padrão dos prédios da Zarvos era bem superior ao dos edifícios da COHAB, e eram comercializados no mercado. Na época, a unidade monetária utilizada era a UPC, e as construtoras que faziam prédios como os nossos conseguiam vender cada apartamento por até 1400 UPCs. A Zarvos, no entanto, com a mesma lucratividade, vendia por 1000 UPCs, o que equivale hoje a cerca de R$ 45 mil. Isso, em bairros como Vila Leopoldina, Penha, Vila Guilherme, sempre a uma distância de 13 a 14 km da Praça da Sé. Depois, com o novo zoneamento da cidade de São Paulo, passamos a construir conjuntos habitacionais de três ou quatro prédios, com quadras esportivas e garagens. Ao todo, foram 35 prédios construídos para o chamado “Projeto Caracol”, utilizando o princípio da alvenaria estrutural e o conceito da modulação, em que cada proprietário poderia ir melhorando seu apartamento aos poucos. Os conjuntos eram todos do mesmo tipo, mas construídos em bairros diferentes. Em função desse trabalho, me empolguei com o uso do bloco e vi que teria condições de fazer edifícios bem mais altos. Estava cansado de projetar prédios de quatro pavimentos. Saí da Zarvos e fui trabalhar numa outra empresa, a Construtora Balbo, que em 1975 construiu uma torre de 12 pavimentos em Diadema.

Na época, a alvenaria estrutural já produzia edifícios altos?

Estava iniciando. A pioneira foi a Construtora Regional São Paulo, na Lapa, que em 1971 lançou o conjunto Central Parque Lapa, de alvenaria estrutural, sem revestimento e com 12 pavimentos. Ainda hoje a construção está lá, logo depois do viaduto da Lapa. O Fuad Jorge Cury foi o arquiteto do projeto, e o calculista, o eng. José Luis Pereira. A verificação do vento foi efetuada pelo Greer Fever, que veio da Califórnia, a convite da Reago, para fazer palestras e análise de vento, uma vez que o Brasil ainda não tinha normas para alvenaria estrutural de blocos de concreto.

Quando as normas surgiram?

Eu estava trabalhando na Reago, fazendo a divulgação da alvenaria estrutural entre as construtoras, quando me animei para desenvolver as normas técnicas para o sistema. Reuni um grupo de pesquisadores e calculistas da USP e do IPT, o pessoal da Cohab e de empresas particulares, e conseguimos redigir um texto que foi apresentado na ABNT. Montamos em seguida uma comissão de estudos e, finalmente, realizamos um grande seminário de estudos de engenharia. A comissão da norma foi instalada sob minha presidência, e consegui atrair para ela mais de cem técnicos de diversas áreas, além dos fabricantes de blocos. Todo esse pessoal participava da redação, especificação, métodos de ensaio, normas de execução, ensaio de prisma, ensaio de parede e normas de cálculo. Na fase de normas de cálculo, em 1986, o Nelson Gomes, do IPT, que mexia com estruturas, assumiu a presidência da comissão, e em 1989 conseguiu liberar a norma de cálculo e de dimensionamento do projeto. Essa norma de projeto está em vigor até hoje e só agora deverá ser revisada.

Como será a revisão?

Quando a norma foi elaborada, usou-se o mesmo coeficiente de segurança do concreto, que levava em conta o dimensionamento das tensões admissíveis. Hoje, no entanto, com o conhecimento acumulado sobre o sistema de alvenaria estrutural, o coeficiente de segurança já é calculado, em todo o mundo, levando-se em conta o “estado de limite útil de ruptura”. Assim, ao se fazer ensaios de resistência de paredes, no ponto em que ela romper, seu coeficiente de majoração deverá ser aquele valor multiplicado por 1,5 e não cinco vezes maior como é atualmente. Portanto, vamos trabalhar com um coeficiente de segurança menor, mas suficiente. As obras continuarão a ter limites de segurança, só que resultarão bem mais econômicas. Pelo menos é o que se espera.

A partir de 1976, o senhor deixou a área de projeto e passou a atuar na difusão do uso de blocos de concreto. Como foi essa experiência?

Na época, fui convidado pela Reago para ser gerente de produto, e passei a desenvolver um trabalho muito intenso, fazendo boletins técnicos, filmes, slides, fotografando obras e visitando construtoras para apresentar o sistema. Esses trabalhos culminaram com a apresentação de um projeto especial para a Cohab de São Paulo, que não estava conseguindo viabilizar suas concorrências pelo preço que queria pagar. Tive a idéia de fazer um projeto estrutural modulado para o tipo bloco de concreto usado pela Cohab, e utilizando o mesmo conceito arquitetônico. A Cohab concordou e passou o projeto para as construtoras que participaram da licitação. A construtora Beter venceu a concorrência e conseguiu viabilizar a obra no preço estabelecido pela Cohab. Essa mesma construtora ganhou depois várias concorrências para a construção dos conjuntos de Itaquera, e fez um total de 14 mil unidades em sete anos.

Quais as principais vantagens que o senhor aponta na alvenaria estrutural?

O sistema é um jogo de montagem muito racional. O bloco, elemento principal da obra, deve ser de boa qualidade, porque sozinho ele vai resolver toda questão da parede. Já a laje, pode ser moldada no local, ou pré-moldada, da mesma forma que outros elementos, como peitoris, fachadas e escadas, o que aumenta a racionalização. Geralmente os construtores procuram tirar partido da rapidez com que se levanta a parede, utilizando lajes e outros elementos pré-moldados. Evitam assim o madeiramento no interior da obra, que fica mais limpa. Outra vantagem importante é a redução de peso proporcionada pelo sistema. Cada metro quadrado de um edifício executado em alvenaria estrutural pesa 800 kg, contra 1200 kg do sistema convencional, com alvenaria de tijolos maciços. A razão da diferença é que o bloco de concreto recebe apenas uma camada leve de gesso como acabamento, enquanto a alvenaria de tijolo convencional precisa ser revestida por grossas camadas de argamassa. A parede de bloco estrutural deixa ainda de prescindir de todo o peso da estrutura do concreto que as paredes convencionais suportam. E, sem dúvida, a quantidade de aço da alvenaria de concreto é bem menor do que a usada na alvenaria convencional.

Depois de todo o sucesso nos anos 1970, no entanto, a alvenaria estrutural não foi muito utilizada nos anos seguintes. Porque isso ocorreu?

Na década de 1980, todo o setor da construção enfrentou o grave problema da falta de financiamento. Mas o sistema nunca parou realmente, esteve sempre evoluindo. Ainda na década de 1980, a vedação de tijolos de cerâmica das estruturas de concreto foi sendo substituída pelos blocos de concreto, exatamente pela exatidão de suas medidas. Como reação, a indústria de blocos cerâmicos começou a desenvolver um produto melhor para poder competir com os blocos de concreto. No entanto, os blocos cerâmicos não conseguiram competir com os de concreto na construção de prédios altos. Enquanto as construções com alvenaria estrutural cerâmica permitem edifícios de até sete pavimentos, o sistema com blocos de concreto permite chegar até a 25 andares.

Mas essas torres são viáveis economicamente?

A partir de 25 andares não é recomendado, porque a vantagem econômica passa a diminuir. Então é mais negócio fazer uma estrutura de concreto.

Porque o sistema ficou tanto tempo associado a projetos de construção popular?

No início, houve um trabalho de marketing dos fabricantes direcionado para esse segmento da construção que, na época, era o que absorvia os maiores volumes de trabalho. Assim, ficou meio afastado da construção tradicional, que continuou a utilizar o concreto. Mas esse tipo de alvenaria sempre se prestou para qualquer tipo de obra. A ABCP abriu seus espaços para eventos sobre o sistema e, na medida que ele ia evoluindo, mais calculistas eram informados sobre suas normas através de palestras e cursos. Para se ter uma idéia, de todos os sistemas construtivos introduzidos na década de 1970, o de alvenaria estrutural foi um dos poucos a permanecer e a evoluir. O número de fabricantes de blocos de concreto foi aumentando, e para fazer frente aos produtos de baixa qualidade, a ABCP resolveu instituir o Selo de Qualidade.

Atualmente, qual é o recorde de altura para os prédios de alvenaria estrutural?

O edifício mais alto do mundo tem 28 andares e fica em Las Vegas, EUA. Aqui em São Paulo, foi executado em 1993, um prédio de 21 pavimentos, no bairro da Penha. Mas temos dezenas de edifícios construídos com até 20 pavimentos por toda a cidade. Recentemente, a CDHU construiu na Radial Leste, em São Paulo, um conjunto de prédios para habitação popular com até 17 andares. Hoje, o sistema de alvenaria estrutural de blocos de concreto já pode oferecer aos arquitetos, a versatilidade tão ambicionada nos anos 1970. E aos construtores e incorporadores, permite que atinjam seus objetivos de construir ao menor custo e com a melhor qualidade.

A mão-de-obra para esse tipo de construção exige especialização?

Como em qualquer lugar do mundo, a mão-de-obra brasileira se adaptou perfeitamente ao sistema. Falavam mal da nossa mão-de-obra porque o pedreiro tinha de trabalhar, muitas vezes, com tijolos de dimensões irregulares. Como os blocos de concreto são produzidos industrialmente, com medidas corretas e uma tolerância dimensional de apenas dois ou três milímetros, o problema não existe. Além disso, o Senai vem realizando cursos de excelente qualidade para formação de pedreiros.

fonte: Revista Prisma - Edição 12
contribuição: Arq. Ilídio Fernandes Silva

Um comentário:

Banda PaueCorda disse...

Um sistema construtivo muito interessante. Vale uma olhada no site. Ema alvenaria estrutural
www.ligelev.com.br ou www.epotec.com.br