14 de mar de 2009

Crise ameaça incorporadoras



Para especialistas, turbulência mundial pode frustrar novas emissões de ações de incorporadoras brasileiras


Os planos de investimento das incorporadoras brasileiras de capital aberto poderão ser comprometidos, ainda neste ano, devido à crise das hipotecas de alto risco ou do subprime (crédito de risco concedido às famílias de baixa renda) do mercado norte-americano. A avaliação é de Felipe Cunha, chefe de análise da Brascan Corretora. Segundo ele, apesar de o mercado imobiliário brasileiro apresentar características radicalmente distintas do vizinho do norte - no Brasil, nem há modalidade semelhante de financiamento bancário para classes mais baixas e os bancos são altamente restritivos à concessão de crédito - o investidor estrangeiro, num primeiro momento, tende a relacionar os dois mercados e considerar o setor imobiliário, como um todo, de alto risco.


"O resultado disso é que o apetite dos investidores sobre o mercado acionário de Real Estate ao redor do mundo diminuiu e, por conta disso, aquelas empresas de capital aberto que vislumbravam fazer nova oferta de ações para aumentarem seus caixas e financiarem seus projetos de expansão terão, talvez, que rever essa estratégia ou aumentarem, e muito, o número de suas emissões para captar o mesmo que captaram", diz. Em outras palavras, com um número menor de interessados, será preciso vender muito mais papéis - o que significa dividir o lucro dos acionistas -, diluindo capital. "A crise traz hoje preços menores de ações, que fazem preços menos atrativos de Private Equity, e assim por diante.


"Tomas Awad, da Itaú Corretora, salienta, entretanto, que isso só vale para as empresas que precisarem de capital imediatamente. "Para aquelas que não queiram sair já ao mercado, a crise não traz conseqüência nenhuma, diria até que a relação entre o que está acontecendo nos Estados Unidos e o que ocorre aqui é baixíssima ou nula", diz. Na opinião dele, os investidores não confundem as realidades de cada mercado e não vivem um receio de crise no Brasil.


Já Felipe Cunha, apesar de continuar "extremamente confiante no investimento no setor", aponta outros impactos em potencial. Para ele, diante do já chamado "cenário de recessão" do mercado americano, o dólar poderá ser valorizado, depreciando o real e comprometendo a baixa inflação brasileira. Para conter esse movimento, o Banco Central poderá aumentar a taxa de juros, "o que pode refletir, por sua vez, no encarecimento do custo de financiamento para compra de imóveis".Isso sem contar que muitas das recentes aberturas de capital das empresas brasileiras foram capitalizadas por investimentos estrangeiros - a uma média de 70% a 80% do total aplicado. E, segundo Cunha, são esses os principais investidores que estão vendendo ações em massa e que derrubaram a bolsa americana recentemente. "O setor imobiliário foi muito afetado pela crise", conclui.


Mas o que muda, na prática, essa desvalorização do preço das ações das incorporadoras?


Para André Segadilha, não muito. Segundo ele, a desvalorização no valor das ações que está sendo assistida atualmente é derivada de uma série de circunstâncias, como a baixa liquidez das incorporadoras, o pouco conhecimento dos investidores sobre cada uma delas, a ausência de resultados comprovados, o próprio movimento de adequação de valor - depois de uma superestimação das incorporadoras nas aberturas de capital - e, por fim, ao fator "psicológico" causado pela inadimplência americana.


"A depreciação aconteceu por causa dos papéis, que foram afetados. E os papéis estão no mercado de capitais, não no mercado real, por isso, não se trata de uma questão de baixa de venda e de perfomance, mas sim de uma contaminação psicológica."Para Segadilha, às incorporadoras cabe apresentar resultados consistentes, e se preocupar com o mercado real - o de construção, porque o mercado de capitais vive um receio especulativo.


"A crise trouxe um medo, mas que não se confirma aqui porque o tipo de mercado brasileiro é outro, as empresas são outras, o crédito é outro... e se as incorporadoras brasileiras mostrarem que estão saudáveis em termos de venda e comprovarem que vieram para fazer dinheiro, não haverá problema algum."


fonte: Construção e Mercado - Março 2008

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