1 de mar de 2009

Inovação Colaborativa

foto: Don Tapscott - autor do livro: "Wikinomics: A Nova Economia das Multidões Inteligentes "
“A inovação colaborativa é uma nova ferramenta disponível para qualquer empresa que desperte para as novas oportunidades agora existentes”

O mundo está a viver o início de uma revolução com consequências sem precedentes na forma como as empresas inovam e produzem.


Don Tapscott é actualmente considerado como um dos maiores “intérpretes” dos fenómenos sociais e empresariais resultantes do surgimento da Web. O seu 11º livro – Wikinomics: A Nova Economia das Multidões Inteligentes – baseado num projecto de investigação de nove milhões de dólares, desafia as convicções tradicionais e ajuda gestores e executivos a encararem a próxima vaga de Internet não como uma ameaça, mas como talvez a sua maior oportunidade. Em entrevista exclusiva ao VER, o consultor e autor desmistifica o poder da colaboração e elege-a como uma das mudanças mais profundas para sociedade e empresas no início do século XXI.



Com base num novo modelo da web, o seu trabalho alerta para revoluções ao nível demográfico, social e económico que estão já a ter lugar. É possível sumarizar as principais características destas revoluções e a forma como irão transformar o mundo tal como o conhecemos?



Nas minhas apresentações, falo de quatro revoluções que estão a ter lugar em simultâneo na actualidade:


Uma Revolução Tecnológica: a Web 2.0. A Internet estática, da pesquisa e da publicação de conteúdos está a ser eclipsada por uma nova web, participativa, que fornece uma poderosa plataforma para a reinvenção das estruturas governamentais, serviços públicos e processos democráticos. A Web já nada tem a ver com o navegar isolado ou com a leitura, audição ou visão passivas. Está, sim relacionada, com uma relação entre pares que tem como bases a socialização, a colaboração e, mais importante que tudo, a criação no interior de comunidades livremente relacionadas.


Uma revolução demográfica: a Geração Net. Nascida entre 1977 e 1997, é o primeiro grupo de pessoas jovens a estar totalmente imerso, desde o seu nascimento, num ambiente digital, hiper-estimulante e interactivo. Globalmente, estes jovens representam mais de um quarto da população mundial e não demorará muito até que comecem a dominar a força de trabalho e o mercado.


Uma revolução social – o networking social. A colaboração online está a explodir e os cidadãos estão, de forma crescente, a organizarem-se para produzir em conjunto um manancial de conhecimento: de enciclopédias a sistemas operativos, passando por campanhas de alerta para o aquecimento global, tudo é possível fazer-se. Com cerca de 85% de estudantes universitários em redes como a FaceBook ou o MySpace – crescendo a um ritmo de 300 mil novos registados por dia – os novos locais para a colaboração online e para o networking social constituem um fenómeno que já não é passível de ser ignorado por ninguém.


Uma Revolução Organizacional - a Wikinomics. Graças à Internet, as empresas estão a começar a visualizar, planejar, desenvolver e distribuir produtos e serviços de formas profundamente inovadoras. A velha crença que é necessário atrair, desenvolver e reter os melhores e mais inteligentes no interior dos limites empresariais está completamente obsoleta. Com as novas tecnologias a reduzirem os custos da colaboração, as empresas podem, de forma crescente, procurar fornecedores externos de ideias, inovações e mentes singulares que fazem parte de uma vasta e global pool de talento.


Afirmou que temos um estereótipo errado relativamente à nova geração que está prestes a juntar-se à força de trabalho: são “multi-tarefas”, vêem pouca televisão e são extremamente activos no que respeita à tecnologia colaborativa, aos jogos e à pesquisa. Afirmou igualmente que as suas ligações sinápticas já são diferentes, na medida em que nasceram e cresceram num ambiente que proporcionou essa alteração. Qual o papel desta nova geração na economia?


A mente da Geração Net é idealmente ajustada para a criação de riqueza na economia da actualidade. A nossa pesquisa demonstra que esta geração possui uma rede de contactos excepcional, é colaborativa, rápida, perscrutadora, socialmente consciente, criativa e amiga do entretenimento. Estes atributos, quando combinados com a facilidade de utilização das ferramentas digitais, traduzir-se-ão em problemas para as empresas e gestores tradicionais. Na economia do conhecimento do século XXI, a maior forma de riqueza de uma empresa não é, literalmente, a sua propriedade ou bens materiais (terrenos, edifícios, fábricas, etc), mas sim a propriedade intelectual e know-how dos seus colaboradores. Uma nova forma de encarar todos os aspectos inerentes aos recursos humanos é igualmente imprescindível: ou seja, repensar práticas como o recrutamento, as compensações, a formação, a supervisão, a motivação, o crescimento e a retenção. Quando aplicadas ao mundo do trabalho, as normas da Geração Net - como a rapidez, a liberdade, o entretenimento e a colaboração entre pares - fornecem às empresas um manifesto para a mudança que irá revolucionar essas mesmas práticas no local de trabalho.


Quais são as principais implicações desta cultura participativa no mundo dos negócios?


Uma alteração fundamental está a ocorrer na forma como as empresas competem entre si. Em particular, a ascensão das tecnologias de informação ligadas em rede e omnipresentes está a dar origem a novas estratégias e conceitos de negócio que permitem às empresas criar um valor diferenciado e/ou estruturas de baixo custo e, consequentemente, beneficiarem de uma vantagem competitiva. Essas empresas utilizam os princípios wikinomics para orquestrar recursos, criar valor e competir de forma absolutamente distinta relativamente às empresas tradicionais. Elas também impulsionam alterações significativas nas suas respectivas indústrias e até mesmo nas regras da concorrência. As pesquisas e a experiência demonstram que as empresas que percebem estas alterações podem ganhar uma rápida vantagem nos seus mercados e construir negócios sustentáveis. Eu diria ainda que a wikinomics é essencial para todos os sectores, indústrias e profissões. A wikinomics permite a colaboração profunda independentemente do tempo e do espaço. A inovação colaborativa é uma nova ferramenta disponível para qualquer empresa que desperte para as novas oportunidades agora existentes.


De que forma é possível convencer as “empresas ‘antigas’ e hierarquicamente estruturadas” a se juntarem a este novo mundo da colaboração’ E como é que se acalmam os executivos amedrontados perante esta forma inovadora de fazer negócios?


Eu repetiria o que respondi na questão anterior. E acrescentaria que algumas pessoas acreditam que a tecnologia é hoje tão flexível e tão facilmente replicável que as empresas devem ser seguidoras rápidas em vez de pioneiras na mesma. Deixe que sejam os seus concorrentes a cometer os erros dispendiosos e limite-se a replicar os seus sucessos. Eu não concordo com esta ideia. Os líderes de mercado lideram e não se limitam a seguir o trilho desbravado. Mas eles lideram conversando com os seus clientes e colaborando com os seus fornecedores no sentido de criarem produtos e serviços inovadores.


O mundo online está a transformar-se num imenso laboratório virtual. Cita, no seu livro, o Projecto do Genoma Humano como um exemplo da colaboração em massa com o objectivo de um bem comum. Mas se este conhecimento não pertence a ninguém, de que forma é que podemos esperar que ele seja (bem) aplicado?


Só porque a informação ou o conhecimento estão disponíveis para qualquer pessoa não significa que não possuam um valor real. O Linux é um bom exemplo. Este sistema operativo está disponível gratuitamente para qualquer pessoa que o pretenda utilizar. Contudo é, simultaneamente, uma fonte no valor de centenas de milhar de dólares para empresas como, por exemplo, a IBM, que ajuda outras empresas a extrair o máximo de valor do software.


Afirmou que “é possível que a colaboração em massa possa vir a ser a killer application que poderá salvar o mundo”. Acredita mesmo nas suas palavras, apesar de todos os “interesses instituídos”?


Sim, acredito. Mark Twain afirmou um dia, relativamente ao clima, que “toda a gente fala no assunto, mas ninguém faz nada sobre o mesmo”. Isso agora está a mudar. Estamos no início de algo sem precedentes. Graças à web 2.0, o mundo inteiro está a começar a colaborar, pela primeira vez na História, em torno de uma única ideia: as alterações climáticas. Pela primeira vez, possuímos um sistema de comunicação “muitos-para-muitos”, multimédia, global e acessível e um assunto que gera um consenso crescente. As alterações climáticas estão a transformar-se, rapidamente, numa questão apartidária, com os cidadãos, as empresas e os governos a terem a sua quota-parte do resultado. Na verdade, o consenso global em torno das alterações climáticas significa que a resolução da crise irá exigir uma liderança de todos os países e de todos os sectores da sociedade. E se existem aqueles que dizem que o aquecimento global não passa de uma mera história, não demorará muito até que as suas vozes sejam abafadas.


Leia também o resumo do livro Wikinomics: A Nova Economia das Multidões inteligentes

fonte: VER - Valores, Ética e Responsabilidade

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